Não é bonitinho? Que um um menino com olhar de cãozinho me siga de longe com a mente, pense em mim em seus sonhos turvos... Mas esse não é você, se não me engano. Há pouco de angelical na sua aura, que causa estremecimento nas menininhas por quem passa.
O que me segue são seus olhos escuros e atrevidos e não apenas uma mente frágil, mas um poço de desejo que sinto roçar na minha nuca. Como disse Nabokov, é fácil reconhecer uma ninfeta quando se sabe o que está procurando. Foi num estalo que descobri o que você era e a compreensão transformou-se em condenação quando percebi o que isso me tornava, de certa forma.
E por que o seu olhar persistente e seu corpo, esguio de juventude, me tornam qualquer coisa além do que eu pensava ser? Ensaio um sorriso vesgo. Povoas meus sonhos acordados com sua boca fresca e seus cabelos, ainda tão infantilmente cortados. Esses muros só são altos quando a gente é pequeno? (...) Talvez, mas dois pares de anos me tornam a mais perversa criminosa aos olhos desavisados de quem circula ao redor do grande foco de luz hipnótica que me lanças.
Seus olhos... São eles os culpados de todo o meu tormento! Seus olhares, que insinuam muito mais do que pode ser lido na íris, suas pupilas, que sonho ver dilatadas quando estivéssemos mais próximos do que um segundo está do outro. Vê? Aos olhos da leu posso ser algoz, mas a seus olhos sou vítima sofrida e deles sou escrava.
Nunca entendi bem por que é que o ovo caía de cima do muro, mas começo a ter ideias. Talvez eu também me espatife no chão se tentar pular um muro alto demais. A questão é: será que ainda posso descer pelo mesmo lado que escalei? Será que a descida não é igualmente mortal para ambos os lados? O ovo espera, inquieto, em cima do muro.
Não escreverei seu nome, porque não posso, mas ele ecoa na minha lembrança. Não descreverei seu rosto, pois isso seria como marcar a ferro o que já está pintado e contornado na minha carne.
Só resta a espera e a espera me mata de dúvida. Quando seus músculos enrijecerem com o peso da idade e sua coluna se alongar para além da minha, para além do muro, será que então seus olhos ainda serão negros, tentadores, irreverentes, meus? Só restam 4 anos e a espera me mata.
Como as notas de uma melodia que no início não fazem sentido, mas depois começam a soar familiares.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Malakof
Saio pelo portão da frente e o sol ainda está quente o suficiente para me fazer suar, mas já não é brilhante o suficiente para fazer parecer um filme. Meus sapatos machucam a cada passo. Piso mais forte. O instinto seria mancar, mas ignoro. Quando eu era pequena estava sempre na ponta dos pés, mas não hoje.
Hoje tenho pressa de chegar ao ponto de ônibus, mas não é por isso que eu piso forte. Me concentro na dor, por um segundo tirando o foco da música seca que escuto porque preciso, mas que já me cansa. Enterro os pés no chão, quiçá por puro masoquismo, quiçá para purgar alguns pecados. Talvez, apenas talvez, eu acabe me acostumando com a dor e caminhar na rua seja como caminhar na ponta dos pés no chão de madeira de um apartamento na federação.
Não tenho sido uma pessoa muito boa... Tem menos a ver com sábado e mais com o cheiro ruim que sai das minhas orelhas. Aconteceu assim: passei os dedos por cima e senti o cheir da minha alma, quase como Doryan Gray. E sim, ela fedia. Bom, não costumava feder quando eu era criança. Tirei depressa meus brinquinhos, na esperança de limpar com sabão aquele musgo, mas o fecho escorregou entre meus ensaboados dedos e fugiu ralo abaixo com um sorriso irônico em seus lábios de fecho (alguns diriam que foi um soluço).
Talvez esse tipo de podridão não se limpe com sabão. Quiçá com um tantinho de sangue? Quem sabe com o líquido de algumas bolhas no calcanhar? ... Piso mais fundo. Quase já não sinto mais a dor. Esfrego mais força o asfalto na pele. Dizem que eu caí, "dizem por ai". Mas eu podia jurar que nada fedia quando eu andava na ponta dos pés e usava brincos de ouro.
Será que eram os brincos de ouro que me deixavam um cheirinho de leite de rosas nas orelhas? Ou era a inocência? Será que brincos de ouro ainda poderiam resolver meu problema? Acho que são muito caros, anyway.
Meu andar já está ritmado ladeira abaixo. A dor fica bem apagada, como quando dançava numa sapatilha de ponta. Me sinto vazia sem ela e seu doce cutucar de carrasco, que chicoteia e faz os bois andarem mais depressa. Não consigo tomar a decisão! Talvez devesse também comprar umas viseiras que não me deixassem olhar para além da minha leira de trigo... A leira que me cabe arar nessa plantação sem fim e sem propósito.
Enquanto o chicote estala e pede pressa, "eu me recuso, faço hora, vou na valsa". Danço com graça, talvez para me sentir como uma princesa, ou mesmo para sentir mais a ferroada dos sapatos de cristal quebrando. Sabe, eu já tive belos brincos de ouro, como uma princesa. Eu apenas não consigo lembrar onde os coloquei!
Já não há sol, sapatos, barulhos de escapamento ou pontos de ônibus. Há o terror de um dia terminando (já acabou, inocente), o abafado de nuvens que insistem em não chover, o medo da insônia e um temor de assistir ao amanhã com os mesmos músculos doídos de hoje e os mesmos olhos de ressaca.
Ah, não os de Capitu, que eram profundos e gravitacionais... Não. De fundo eu tenho olheiras, apenas, e a gravidade é só uma ameaça contante do tempo, que promete desabar minhas carnes com o passar dos dias. A ressaca? Há. Se o mar me puxasse para sí eu lhe seria grata. A ressaca que tenho é de vodka e culpa.
"Nenhuma taça me mata a sede", mas, como Alzira, descubro que "o chão do Recife afunda um milímetro a cada gole". O tédio briga com o medo e se engalfinha com a culpa pelo domínio de mim: luta de gigantes, vale-tudo, UFC.
Entenda, no filme a princesinha bonita ficou com o mágico e a bruxa feia de coração partido e enfeitiçado voou para longe numa vassoura, soltando uma fumaça negra como um cigarro risonho e louco. Bom, não sou a princesa branca das bolhas de sabão e neblina colorida. Talvez eu ainda possa ser o mágico? Há. Não sou inteligente e determinada o suficiente... Talvez o macaquinho engraçado? Algum outro personagem secundário?
Por favor, só me diga onde compro novos brincos de ouro! Aliás, não me fale nada. Não sei se tenho mais medo de ficar sem eles ou de encontrá-los. E se minha orelha não cheirar melhor com eles? E se eu deixar seus fechos escorregarem pelo ralo com um sorriso irônico? (Soluço, darling, so-lu-ço).
Só posso torcer para que a bruxa esteja me esperando com um jardim no meio do asfalto, na rua do Hospício. Piso com força nos tijolos amarelos, os sapatinhos vermelhos machucam, mas já consigo ver a torre! Em que paraíso distante Alzira espera por mim?
Hoje tenho pressa de chegar ao ponto de ônibus, mas não é por isso que eu piso forte. Me concentro na dor, por um segundo tirando o foco da música seca que escuto porque preciso, mas que já me cansa. Enterro os pés no chão, quiçá por puro masoquismo, quiçá para purgar alguns pecados. Talvez, apenas talvez, eu acabe me acostumando com a dor e caminhar na rua seja como caminhar na ponta dos pés no chão de madeira de um apartamento na federação.
Não tenho sido uma pessoa muito boa... Tem menos a ver com sábado e mais com o cheiro ruim que sai das minhas orelhas. Aconteceu assim: passei os dedos por cima e senti o cheir da minha alma, quase como Doryan Gray. E sim, ela fedia. Bom, não costumava feder quando eu era criança. Tirei depressa meus brinquinhos, na esperança de limpar com sabão aquele musgo, mas o fecho escorregou entre meus ensaboados dedos e fugiu ralo abaixo com um sorriso irônico em seus lábios de fecho (alguns diriam que foi um soluço).
Talvez esse tipo de podridão não se limpe com sabão. Quiçá com um tantinho de sangue? Quem sabe com o líquido de algumas bolhas no calcanhar? ... Piso mais fundo. Quase já não sinto mais a dor. Esfrego mais força o asfalto na pele. Dizem que eu caí, "dizem por ai". Mas eu podia jurar que nada fedia quando eu andava na ponta dos pés e usava brincos de ouro.
Será que eram os brincos de ouro que me deixavam um cheirinho de leite de rosas nas orelhas? Ou era a inocência? Será que brincos de ouro ainda poderiam resolver meu problema? Acho que são muito caros, anyway.
Meu andar já está ritmado ladeira abaixo. A dor fica bem apagada, como quando dançava numa sapatilha de ponta. Me sinto vazia sem ela e seu doce cutucar de carrasco, que chicoteia e faz os bois andarem mais depressa. Não consigo tomar a decisão! Talvez devesse também comprar umas viseiras que não me deixassem olhar para além da minha leira de trigo... A leira que me cabe arar nessa plantação sem fim e sem propósito.
Enquanto o chicote estala e pede pressa, "eu me recuso, faço hora, vou na valsa". Danço com graça, talvez para me sentir como uma princesa, ou mesmo para sentir mais a ferroada dos sapatos de cristal quebrando. Sabe, eu já tive belos brincos de ouro, como uma princesa. Eu apenas não consigo lembrar onde os coloquei!
Já não há sol, sapatos, barulhos de escapamento ou pontos de ônibus. Há o terror de um dia terminando (já acabou, inocente), o abafado de nuvens que insistem em não chover, o medo da insônia e um temor de assistir ao amanhã com os mesmos músculos doídos de hoje e os mesmos olhos de ressaca.
Ah, não os de Capitu, que eram profundos e gravitacionais... Não. De fundo eu tenho olheiras, apenas, e a gravidade é só uma ameaça contante do tempo, que promete desabar minhas carnes com o passar dos dias. A ressaca? Há. Se o mar me puxasse para sí eu lhe seria grata. A ressaca que tenho é de vodka e culpa.
"Nenhuma taça me mata a sede", mas, como Alzira, descubro que "o chão do Recife afunda um milímetro a cada gole". O tédio briga com o medo e se engalfinha com a culpa pelo domínio de mim: luta de gigantes, vale-tudo, UFC.
Entenda, no filme a princesinha bonita ficou com o mágico e a bruxa feia de coração partido e enfeitiçado voou para longe numa vassoura, soltando uma fumaça negra como um cigarro risonho e louco. Bom, não sou a princesa branca das bolhas de sabão e neblina colorida. Talvez eu ainda possa ser o mágico? Há. Não sou inteligente e determinada o suficiente... Talvez o macaquinho engraçado? Algum outro personagem secundário?
Por favor, só me diga onde compro novos brincos de ouro! Aliás, não me fale nada. Não sei se tenho mais medo de ficar sem eles ou de encontrá-los. E se minha orelha não cheirar melhor com eles? E se eu deixar seus fechos escorregarem pelo ralo com um sorriso irônico? (Soluço, darling, so-lu-ço).
Só posso torcer para que a bruxa esteja me esperando com um jardim no meio do asfalto, na rua do Hospício. Piso com força nos tijolos amarelos, os sapatinhos vermelhos machucam, mas já consigo ver a torre! Em que paraíso distante Alzira espera por mim?
sexta-feira, 7 de março de 2014
Pigarro (ft. Tom Nobre)
O frio que desce em brisa dos seus lábios
Corta mais que a navalha desenhada no seu braço
Emudecidos como dois otários
O frio quebra o gelo pra cortar o embaraço
Como foi que nos perdemos aqui?
O peso morto do seu coração só me faz mal
Afinal, pra onde mais podemos ir?
Se você queima folhas, minha boca, não discute, desconversa e tal, e tal
Tem um fantasma
Que sapateia na minha sala
Eu gosto do tom de vermelho desse sofá
Tenho sapatos
Que sapateiam na entrada
Eu gosto de marasmo e da brisa do mar
Outros planetas
Que se deslocam pelo céu
Não sei se são satélites ou folhas de chá
Outras palavras
Já não se prendem no papel
Camadas e camadas de uma bolha de ar
Em meio ao eco surge um arrepio
Correu em minha espinha afiado calafrio
Um olhar morto, um sorriso vazio
Eu chego a desejar por um silêncio mais macio
E se um dia eu atravessar
Pelo seus pensamentos e um sorriso surgir
Afinal, do que podia se lembrar?
Se os momentos bons parecem sombras
Que se escondem e não cansam de fugir
Tem um fantasma
Que sapateia na minha sala
Eu gosto do tom de vermelho desse sofá
Tenho sapatos
Que sapateiam na entrada
Eu gosto de marasmo e da brisa do marOutros plantas
Que se deslocam pelo céu
Não sei se são satélites ou folhas de chá
Outras palavras
Já não se prendem no papel
Camadas e camadas de uma bolha de ar
Humor Blasé
Não queria dizer nada
Um toque vale mais
Que milhares de palavras
Convertidas em sinas de fumaça
Que entre os lábios se desfaz
Nunca pude dizer nada
O símples pensamento
Já me põe numa cilada
Uma música diz mais
Que palavras
Que só lê quem é atento
E no imaginário do retrato
Que eu faço de você
Já tem um par de óculos
E o seu humor blasé
E as palavras bem pensadas
Que são ditas sem querer
Disfarço entre tragadas
Desse seu humor blasé
Me encosto na piada
Silêncio é bom pra quem
Não está desesperada
O que me fode mesmo
É a estrada
E não saber o que é que vem
Bem queria dizer tudo
Cuspir o mal-estar
De um sonho meio turvo
Preencher esse vazio
Absurdo
Bem queria te falar
Que no imaginário do retrato
Que eu faço de você
Já tem janelas soltas
E o seu humor blasé
E as fachadas desmembradas
Que no fundo ninguém vê
Me trazem nostalgia
Desse seu humor blasé
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Part of The Game
Gotta stop judging
Gotta stop being a poisonous snake
Gotta stop hurting, stop making you ache
Gotta stop hating
Gotta stop spreading gossip around
When silence is better, don't make any sound
Gotta stop smoking
Gotta stop being a part of 'The Game'
Gotta stop acting like I was the same
Gotta stop judging
Stop drinking too much
Gotta stop being a bitch and a cow
Gotta stay cool, gotta stay calm
Gotta stop judging
Gotta stop talking
Gotta stop
And just breathe
Gotta stop being a poisonous snake
Gotta stop hurting, stop making you ache
Gotta stop hating
Gotta stop spreading gossip around
When silence is better, don't make any sound
Gotta stop smoking
Gotta stop being a part of 'The Game'
Gotta stop acting like I was the same
Gotta stop judging
Stop drinking too much
Gotta stop being a bitch and a cow
Gotta stay cool, gotta stay calm
Gotta stop judging
Gotta stop talking
Gotta stop
And just breathe
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Terraço 3
Dentre os quase infinitos hotéis de quinta com nomes bizarros, o Terraço tinha motivos para ser assim chamado. No último andar jazia, semi-destruída, uma escada de ferro grudada na parede. Por ela, subia-se ao teto, passando por uma espécie de alçapão que nunca estava realmente fechado. Era de uma laje batida sem nenhum requinte que o Terraço tirava seu nome e boa parte de sua clientela.
Embora o lugar em si tivesse o mesmo toque azulejado de espelunca que cobria todo o edifício, não havia em toda a cidade um prédio de luxo com vista mais sensacional. A vizinhança de construções pobres e baixas garantia um 360º de horizontes irregulares. Aos olhos de Nícola, o brilho suave do sol que surgia escorria pelo asfalto das ruas até a praia, como rios desembocando no mar.
O ar fresco da manhã nascente vinha carregado de um salitre que lhe descia pelo peito, fazendo o caminho inverso ao da bola de emoções confusas que guardava havia tanto tempo. Era salgado também o gosto que sentia na boca, vindo dos olhos em caminhos que ainda ardiam em seu rosto.
Do seu panoptikum ele também enxergava a porta de entrada do hotel e as pessoas que entravam e saíam. Pôde então ver, num corte transversal, o vórtice de toda a sua tempestade pessoal. Uma cabeça e dois ombros morenos que se moviam apressados pela rua. Não era comum que a luz do dia iluminasse o seu disfarce, mas às vezes a manhãzinha chegava antes que seus assuntos estivessem terminados.
Nicola esperou até que Rafael fosse apenas um ponto entre os edifícios de cidade, desparecendo no labirinto de ruelas em um passo bamboleante. Quando seus olhos já não mais o podiam avistar, pousaram no mar à sua frente e no brilho que os tímidos raios solares causavam na espuma da maré vazante. Desejou que as ondas levassem consigo os seus sentimentos para o fundo das águas, para o esquecimento.
O corpo pesado; nada se movia com exceção dos pulmões, do coração e de um ocasional piscar de olhos. Esperava algo, qualquer coisa. Talvez a providência divina, que o ascendesse ao céu, livrando-lhe da carne suja; talvez as próprias pernas desiludidas, que saltassem e o livrassem do espírito perturbado. Um segundo, dois. Três minutos, quatro. Cinco anos? Ele não saberia dizer: não escutava bem o próprio pulso e perdera a conta da respiração. Esperava um milagre, um champignon gigante de uma bomba que lhe explodisse a cabeça com um ânimo avassalador. O sangue jorraria e evaporaria com o calor, enquanto seus pensamentos seriam espalhados pelo chão.
Nicola imaginou ver luzes ao longe - um disco voador - mas só por instantes. Piscou e livrou-se dos reflexos na água do mar, que se prendiam em seu cílios como purpurina. O peso de um cruel livre arbítrio lhe afundava os ombros enquanto a solidão finalmente era apercebida pelo timo do rapaz. Ele nunca testara o universo, nunca esperara nada do destino e então, pela primeira vez gritando no túnel, não recebera maior resposta que o eco da própria voz.
Era viado. Era viado e sozinho. Era viado, sozinho e não tinha salvação nem coragem para pular. Essas certezas se enfiavam nele no compasso em que as compreendia. Faziam o caminho inverso do sistema digestório, entrando pelo cú e saindo pela boca em gritos desesperados. Era tão feliz.
... feliz
... feliz
... feliz
... hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahhaahhahaha!
O sol já estava a pino quando viram passar o cadáver andante de um homem em direção à praia. Ninguém tentou se encostar nele ou lhe dirigir palavras, ninguém demorava os olhos sobre ele. A sua pele mais parecia a persiana aberta de uma janela. Porém, ao invés de luz, era sangue pastoso e escuro que trespassava as fitas de derme.
Um filete único descia pela sarjeta da rua como um barbante rubro. Quem conseguisse segurar sua ponta e seguir seu caminho pelo labirinto urbano chegaria na calçada da orla, meio desabada desde a última enchente. Daquele ponto em diante não havia mais rastros ou qualquer evidência de Nícola. O mar, ao engolir seu corpo, limpara todas as pegadas e vestígios da praia, como quem lambe os dedos após uma boa refeição, sem pressa.
Mas o tempo não para. O sol logo logo descia em marcha pelo céu e as ondas, satisfeitas, dançavam ao som de ossos sacolejantes que logo seriam areia, como tantos outros antes deles.
Embora o lugar em si tivesse o mesmo toque azulejado de espelunca que cobria todo o edifício, não havia em toda a cidade um prédio de luxo com vista mais sensacional. A vizinhança de construções pobres e baixas garantia um 360º de horizontes irregulares. Aos olhos de Nícola, o brilho suave do sol que surgia escorria pelo asfalto das ruas até a praia, como rios desembocando no mar.
O ar fresco da manhã nascente vinha carregado de um salitre que lhe descia pelo peito, fazendo o caminho inverso ao da bola de emoções confusas que guardava havia tanto tempo. Era salgado também o gosto que sentia na boca, vindo dos olhos em caminhos que ainda ardiam em seu rosto.
Do seu panoptikum ele também enxergava a porta de entrada do hotel e as pessoas que entravam e saíam. Pôde então ver, num corte transversal, o vórtice de toda a sua tempestade pessoal. Uma cabeça e dois ombros morenos que se moviam apressados pela rua. Não era comum que a luz do dia iluminasse o seu disfarce, mas às vezes a manhãzinha chegava antes que seus assuntos estivessem terminados.
Nicola esperou até que Rafael fosse apenas um ponto entre os edifícios de cidade, desparecendo no labirinto de ruelas em um passo bamboleante. Quando seus olhos já não mais o podiam avistar, pousaram no mar à sua frente e no brilho que os tímidos raios solares causavam na espuma da maré vazante. Desejou que as ondas levassem consigo os seus sentimentos para o fundo das águas, para o esquecimento.
O corpo pesado; nada se movia com exceção dos pulmões, do coração e de um ocasional piscar de olhos. Esperava algo, qualquer coisa. Talvez a providência divina, que o ascendesse ao céu, livrando-lhe da carne suja; talvez as próprias pernas desiludidas, que saltassem e o livrassem do espírito perturbado. Um segundo, dois. Três minutos, quatro. Cinco anos? Ele não saberia dizer: não escutava bem o próprio pulso e perdera a conta da respiração. Esperava um milagre, um champignon gigante de uma bomba que lhe explodisse a cabeça com um ânimo avassalador. O sangue jorraria e evaporaria com o calor, enquanto seus pensamentos seriam espalhados pelo chão.
Nicola imaginou ver luzes ao longe - um disco voador - mas só por instantes. Piscou e livrou-se dos reflexos na água do mar, que se prendiam em seu cílios como purpurina. O peso de um cruel livre arbítrio lhe afundava os ombros enquanto a solidão finalmente era apercebida pelo timo do rapaz. Ele nunca testara o universo, nunca esperara nada do destino e então, pela primeira vez gritando no túnel, não recebera maior resposta que o eco da própria voz.
Era viado. Era viado e sozinho. Era viado, sozinho e não tinha salvação nem coragem para pular. Essas certezas se enfiavam nele no compasso em que as compreendia. Faziam o caminho inverso do sistema digestório, entrando pelo cú e saindo pela boca em gritos desesperados. Era tão feliz.
... feliz
... feliz
... feliz
... hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahhaahhahaha!
O sol já estava a pino quando viram passar o cadáver andante de um homem em direção à praia. Ninguém tentou se encostar nele ou lhe dirigir palavras, ninguém demorava os olhos sobre ele. A sua pele mais parecia a persiana aberta de uma janela. Porém, ao invés de luz, era sangue pastoso e escuro que trespassava as fitas de derme.
Um filete único descia pela sarjeta da rua como um barbante rubro. Quem conseguisse segurar sua ponta e seguir seu caminho pelo labirinto urbano chegaria na calçada da orla, meio desabada desde a última enchente. Daquele ponto em diante não havia mais rastros ou qualquer evidência de Nícola. O mar, ao engolir seu corpo, limpara todas as pegadas e vestígios da praia, como quem lambe os dedos após uma boa refeição, sem pressa.
Mas o tempo não para. O sol logo logo descia em marcha pelo céu e as ondas, satisfeitas, dançavam ao som de ossos sacolejantes que logo seriam areia, como tantos outros antes deles.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Les Mangeurs De Nuages
Os dias me vão descendo pela garganta como granola. Os duros grãozinhos são os desejos reprimidos que empurro para dentro. Mas não é possível digerí-los por completo. Eles tampouco se deixam voar para fora da minha boca como borboletas saídas de um casulo; apenas escorrem pelo ralo, meio disformes da trituragem incompleta.
Pé ante pé, meus passos ecoam pela sala vazia como tambores arautos dos pesadelos. E mesmo que eu pise leve como um gato ainda posso escutá-los retumbando no azulejo frio. Volto a sentir medo do escuro, do gás do fogão, da luz vermelha do corredor e dos meus próprios passos, escondidos nos calcanhares.
O "Julho" no calendário é como um atestado de total incompetência diante da enorme quantidade de "x"s e do pouco que fiz de útil e concreto. Mas esse certificado oficial de displicência parecerá belo aos meus olhos quando a próxima folha for virada, trazendo a legalidade para os meus ombros e me condenando à prisão perpétua, à fronteira final da realidade e às eternas rugas de preocupação.
Sinto-me travada, como uma máquina de escrever enguiçada. As letrinhas vão se entalando em mim e entupindo-me como a gordura às veias cardíacas de alguns. O sangue já não passa e eu quase já não tenho pulso. As pecinhas vão se amontoando como uma fila de hospital e a cada dia que passa tenho mais letras para curar e menos ideia de como fazê-lo.
Penso nas curvas que delineiam certas lembranças e nos olhos que ficaram gravados nos meus, engessados como um braço quebrado. Penso em tudo o que tenho e que me é mais precioso que qualquer diamante de Serra Leoa e mais raro que chuva de granizo numa praia de verão. Penso nas tesouras de costura, que cortam gesso, roupas e todo, todo tipo de tecido, mas não costuram nem fiapos, retalhos ou mesmo frangalhos.
Queria que as coisas caíssem da realidade diretamente nas caixinhas que criei dentro do meu cérebro. Queria organizar minha cabeça como se fosse um daqueles brinquedos de bebê, com cores e formas que encaixam e te deixam com aquela sensacão de depois de estalar um dedo. Emocões fraternas nas caixinhas verdes, amores das cor-de-rosa, paixões nas vermelhas, melancolia nas azuis e solidão nas marrons. Mas e a minhas caixa preta? Quem vai abrir?
Se sonho com Pandora, já traio a mim mesma no ponto em que as caixinhas rasgam e espalham tudo numa grande e colorida piscina de bolinhas. E se Pandora tem os olhos âmbar, já sei que os lobos estão por perto, esperando o meu fechar de olhos. E assim, não tenho medo do escuro, mas do que posso acabar vendo em maio à escuridão.
Engulo em seco e a granola estala como lenha na fogueira. Vai abrindo seu caminho aos tapas pela minha faringe, enquanto a fumaça envereda pela traquéia e lhe acena boa viagem. Dá adeus aos bons costumes, à limpeza de alma e à tranquilidade pulmonar. Dá adeus aos dias em que as decisões eram reversíveis.
Incrível como já não é possível nem mesmo penetrar de fato num universo que antes me era almejado, talvez divino. Tais coisas e pessoas hoje se encontram ao alcance da minha mão, ao toque dos meus dedos. No entanto, quando sacudo o braço elas se desvanecem em fumaça, como que irreais. Tornam-se transparentes, escassas, superficiais e, por fim, invisíveis aos meus olhos. Suas vozes vão ficando desimportantes aos meus ouvidos e emudecem por completo diante de uma música do Guided By Voices.
É nesse ponto que os mares tomam meus arredores. "I am a scientist, I seek to understand me..." - A ilha se forma, a neblina desce, os rostos e línguas empalidecem - "... I am an incurable and nothing alse behaves like me".
Pé ante pé, meus passos ecoam pela sala vazia como tambores arautos dos pesadelos. E mesmo que eu pise leve como um gato ainda posso escutá-los retumbando no azulejo frio. Volto a sentir medo do escuro, do gás do fogão, da luz vermelha do corredor e dos meus próprios passos, escondidos nos calcanhares.
O "Julho" no calendário é como um atestado de total incompetência diante da enorme quantidade de "x"s e do pouco que fiz de útil e concreto. Mas esse certificado oficial de displicência parecerá belo aos meus olhos quando a próxima folha for virada, trazendo a legalidade para os meus ombros e me condenando à prisão perpétua, à fronteira final da realidade e às eternas rugas de preocupação.
Sinto-me travada, como uma máquina de escrever enguiçada. As letrinhas vão se entalando em mim e entupindo-me como a gordura às veias cardíacas de alguns. O sangue já não passa e eu quase já não tenho pulso. As pecinhas vão se amontoando como uma fila de hospital e a cada dia que passa tenho mais letras para curar e menos ideia de como fazê-lo.
Penso nas curvas que delineiam certas lembranças e nos olhos que ficaram gravados nos meus, engessados como um braço quebrado. Penso em tudo o que tenho e que me é mais precioso que qualquer diamante de Serra Leoa e mais raro que chuva de granizo numa praia de verão. Penso nas tesouras de costura, que cortam gesso, roupas e todo, todo tipo de tecido, mas não costuram nem fiapos, retalhos ou mesmo frangalhos.
Queria que as coisas caíssem da realidade diretamente nas caixinhas que criei dentro do meu cérebro. Queria organizar minha cabeça como se fosse um daqueles brinquedos de bebê, com cores e formas que encaixam e te deixam com aquela sensacão de depois de estalar um dedo. Emocões fraternas nas caixinhas verdes, amores das cor-de-rosa, paixões nas vermelhas, melancolia nas azuis e solidão nas marrons. Mas e a minhas caixa preta? Quem vai abrir?
Se sonho com Pandora, já traio a mim mesma no ponto em que as caixinhas rasgam e espalham tudo numa grande e colorida piscina de bolinhas. E se Pandora tem os olhos âmbar, já sei que os lobos estão por perto, esperando o meu fechar de olhos. E assim, não tenho medo do escuro, mas do que posso acabar vendo em maio à escuridão.
Engulo em seco e a granola estala como lenha na fogueira. Vai abrindo seu caminho aos tapas pela minha faringe, enquanto a fumaça envereda pela traquéia e lhe acena boa viagem. Dá adeus aos bons costumes, à limpeza de alma e à tranquilidade pulmonar. Dá adeus aos dias em que as decisões eram reversíveis.
Incrível como já não é possível nem mesmo penetrar de fato num universo que antes me era almejado, talvez divino. Tais coisas e pessoas hoje se encontram ao alcance da minha mão, ao toque dos meus dedos. No entanto, quando sacudo o braço elas se desvanecem em fumaça, como que irreais. Tornam-se transparentes, escassas, superficiais e, por fim, invisíveis aos meus olhos. Suas vozes vão ficando desimportantes aos meus ouvidos e emudecem por completo diante de uma música do Guided By Voices.
É nesse ponto que os mares tomam meus arredores. "I am a scientist, I seek to understand me..." - A ilha se forma, a neblina desce, os rostos e línguas empalidecem - "... I am an incurable and nothing alse behaves like me".
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