Quando já não sei o que fazer comigo mesma eu procuro tudo o que não está em mim. Aqui adentro se abre um vazio alucinante e preciso encher, encher, devorar! Devoro comida, imagens, conhecimento, conhecimento... Os olhos latejam e o vazio continua pulsando. Como dói!
O vazio e a solidão irremediável da auto-consciência em meio a toda não-significância da realidade. Quisera dormir. Me reviro na cama. Me toco. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes, seis! Já tudo pulsa de insensibilidade por excesso de sentir, de roçar.
Fecho os olhos, conto. Deusa, por que não posso dormir? É minha última opção! Me permita dormir e apagar todas as coisas ásperas do mundo desperto. Piedade! Me deixem dormir. Se não sei o que busco... O que quero... É tudo o que peço. Apaga meu cérebro, descansa meus olhos inchados.
Me deixa dormir. Desculpar as faltas, as falhas, os bolos, tortas, vacilos, comédias, desculpar as desculpas esfarrapadas com o incontestável "Caí. De sono." - "Me quedei. Dormida." - O sono como um trator, aplastando os calombos.
Me deixa dormir.
Como as notas de uma melodia que no início não fazem sentido, mas depois começam a soar familiares.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
sexta-feira, 22 de abril de 2016
"Para que você continue permitindo que sua alma transborde"
Aqui começa mais um caderno.
Com direito a introdução, com direito a ilustração, com direito a dedicatória e cheiro de caderno novo.
Começo mais um caderno na esperança de me sentir cada vez menos vazia à medida que encho de palavras azuis as páginas brancas. Esperança esta que acompanha a vontade de comer o mundo e vomitar sentimentos através dessas tantas invenções humanas que me permitem isso. Canetas, tinta, papel, linguagem... Tecnologias que não terminam de servir ao "homem", mas que jamais poderão libertar-(los, nos?) da condição redundantemente humana, mundana, mortal, angustiada.
Escrevo para permitir que minha alma transborde para fora desse corpo em lenta decomposição, que jamais poderá conter toda a essência desses 21 gramas. Fragmentos de peso estes que balanceiam a carga de Atlas e sangram em arte para impedir que a vida nos esmague.
Que este novo caderno seja um brinde à arte, às grandes emoções, aos momentos brutais, inesquecíveis ou simplesmente comuns. Que seja um brinde às eternas lembranças e aos novos começos.
Dedicado a Clara, pelas páginas.
Dedicado a Clarice, pelas palavras.
Com direito a introdução, com direito a ilustração, com direito a dedicatória e cheiro de caderno novo.
Começo mais um caderno na esperança de me sentir cada vez menos vazia à medida que encho de palavras azuis as páginas brancas. Esperança esta que acompanha a vontade de comer o mundo e vomitar sentimentos através dessas tantas invenções humanas que me permitem isso. Canetas, tinta, papel, linguagem... Tecnologias que não terminam de servir ao "homem", mas que jamais poderão libertar-(los, nos?) da condição redundantemente humana, mundana, mortal, angustiada.
Escrevo para permitir que minha alma transborde para fora desse corpo em lenta decomposição, que jamais poderá conter toda a essência desses 21 gramas. Fragmentos de peso estes que balanceiam a carga de Atlas e sangram em arte para impedir que a vida nos esmague.
Que este novo caderno seja um brinde à arte, às grandes emoções, aos momentos brutais, inesquecíveis ou simplesmente comuns. Que seja um brinde às eternas lembranças e aos novos começos.
Dedicado a Clara, pelas páginas.
Dedicado a Clarice, pelas palavras.
sábado, 2 de abril de 2016
29/02/2016
Gosto de voltar pra casa de noite dirigindo pela costa. Gosto de me sentir solitária, infinita, vazia, de perceber a imensidão do mar engolindo a cidade adormecida, lúgebre.
Passo pelos vultos das prostitutas, que como se fossem bestas, saem à noite para caçar. São figuras simultaneamente voluptuosas e discretas. Afora elas, a noite é dos homens - que infestam as ruas com a ausência do gênero oposto - e das pistas de piche, negras, molhadas, absorventes. Os olhos parece que se engancham nas listras amarelas, uma após a outra, em velocidade disforme.
O carro devora o vento, come o asfalto, desliza pelo tempo. Gosto de dirigir pelas ruas desertas da noite dessa cidade enlouquecida, mareada, caduca, decrépita como a humanidade, controversa como a figura das prostitutas.
Passo pelos vultos das prostitutas, que como se fossem bestas, saem à noite para caçar. São figuras simultaneamente voluptuosas e discretas. Afora elas, a noite é dos homens - que infestam as ruas com a ausência do gênero oposto - e das pistas de piche, negras, molhadas, absorventes. Os olhos parece que se engancham nas listras amarelas, uma após a outra, em velocidade disforme.
O carro devora o vento, come o asfalto, desliza pelo tempo. Gosto de dirigir pelas ruas desertas da noite dessa cidade enlouquecida, mareada, caduca, decrépita como a humanidade, controversa como a figura das prostitutas.
sexta-feira, 11 de março de 2016
Decifra-me
Escuto o som do mundo esperando que eu o devore. É o único som que há, captado direto da realidade por meus accuratos ouvidos e montado em cima da linha do tempo, composta por tantas outras faixas, tantas vezes inúteis.
Escuto o som do mundo implorando para que eu o devore. As pessoas se olham, sem palavras. O olhar já diz o essencial, que pode até ser invisível aos olhos. Os instrumentos, sem dúvidas, soam. Em sua maioria. Algumas canções, a menudo expressas em letras chupadas do pensamento filosófico mais autêntico, da mais pura essência do sentimento.
Escuta-se o som do mundo devorando-se a si mesmo. Mas não soam as charlas de preenchimento do tecido sonoro de realidade artificial. O diálogo da bola de ping-pong que se esbarra de um canto ao outro sem penetrar. Se escutam o ranger dos dentes e os gemidos, piscares de olhos. Mas não se escuta o som da boca pedindo p queijo na mesa do café. Escuta-se o som da garganta devorando o sanduíche.
Mas ao fundo está o som do mundo, esperando-me para ser devorado. Grave, fatal, devastador e incessante. É o ventanal, é o mar, são as folhas chocando-se, é o zumbido que vem da terra. São as buzinas e as chaminés e os motores enlouquecidos e enlouquecedores, é o barulho do cheiro da fumaça entrando no nariz.
É o som do mundo, desesperado para que eu o devore. A fumaça flutua, muda, contra a luz. Sensual. Seu barulho não existe. Sua imagem se funde com o ruído de mar. Grave, tormenta - Uma grande e áspera respiração. Constante, é difícil notar quando inspira ou expira.
É apenas implacável, devastador. Sentada, ouço o som do mundo esperando que eu o devore.
Escuto o som do mundo implorando para que eu o devore. As pessoas se olham, sem palavras. O olhar já diz o essencial, que pode até ser invisível aos olhos. Os instrumentos, sem dúvidas, soam. Em sua maioria. Algumas canções, a menudo expressas em letras chupadas do pensamento filosófico mais autêntico, da mais pura essência do sentimento.
Escuta-se o som do mundo devorando-se a si mesmo. Mas não soam as charlas de preenchimento do tecido sonoro de realidade artificial. O diálogo da bola de ping-pong que se esbarra de um canto ao outro sem penetrar. Se escutam o ranger dos dentes e os gemidos, piscares de olhos. Mas não se escuta o som da boca pedindo p queijo na mesa do café. Escuta-se o som da garganta devorando o sanduíche.
Mas ao fundo está o som do mundo, esperando-me para ser devorado. Grave, fatal, devastador e incessante. É o ventanal, é o mar, são as folhas chocando-se, é o zumbido que vem da terra. São as buzinas e as chaminés e os motores enlouquecidos e enlouquecedores, é o barulho do cheiro da fumaça entrando no nariz.
É o som do mundo, desesperado para que eu o devore. A fumaça flutua, muda, contra a luz. Sensual. Seu barulho não existe. Sua imagem se funde com o ruído de mar. Grave, tormenta - Uma grande e áspera respiração. Constante, é difícil notar quando inspira ou expira.
É apenas implacável, devastador. Sentada, ouço o som do mundo esperando que eu o devore.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Derrela
Y se fué todo a la mierda.
Meus planos, meus pobres enganos... Meus vinte anos de opressões guardadas e ilusões e martírios: por que não comigo? Por que fico batendo de cabeça contra um antro que não me quer, me diminui... Me vê como musa parcialmente incapacitada. Me sinto mesmo é fracassada.
Como é que um elogio se torna a por das ofensas? Como pode conter em sí um direcionamento velado, esse cortejo aparentemente tão nobre? E eu que queria tanto ser bonita, agora odeio meu nome, me rasgo o rosto pelos olhos abaixo. Duvido de meus esforços e rio de minhas aspirações.
Afundo em meu peito as cinzas do cigarro do fracasso - orgânico, hein? Mas de que importa? Não serve minha garganta pra cantar? - QUEIMO. Não servem meus pulmões pra soprar? - TORRO. Não servem pra tocar esses meus artríticos dedos? - AGARRO com eles um novo cigarro e meto bronca.
E que desça rasgando. E que a porra do porro seque tanto tudo ao ponto de que já nem tenha lágrimas pra chorar por esse futuro que nunca foi (nem nunca será).
Será? BASTA DE ESPERANÇA. Para mim agora tem que bastar uma verborragia que tira do peito os sentimentos e joga no papel de qualquer jeito, que me deixa zonza e vazia, insone, de olhos abertos no escuro. Sem medo, sem amor... Vazios.
Luz dos olhos se esmaecendo, tremulando. E se o amor só é bom se doer... Bom, bom. Não sinto amor, nem medo, nem dor. Só sinto fome. Pergunte ao meu orixá, se não me crê. O amor só é bom se doer. E eu não sinto amor, nem medo, nem dor.
Eu sinto fome. Com nome e sobrenmome. Começa com A e termina com E. Começa com R e termina com A. Você tem fome de quê? Já lembrou do que é?
Meus planos, meus pobres enganos... Meus vinte anos de opressões guardadas e ilusões e martírios: por que não comigo? Por que fico batendo de cabeça contra um antro que não me quer, me diminui... Me vê como musa parcialmente incapacitada. Me sinto mesmo é fracassada.
Como é que um elogio se torna a por das ofensas? Como pode conter em sí um direcionamento velado, esse cortejo aparentemente tão nobre? E eu que queria tanto ser bonita, agora odeio meu nome, me rasgo o rosto pelos olhos abaixo. Duvido de meus esforços e rio de minhas aspirações.
Afundo em meu peito as cinzas do cigarro do fracasso - orgânico, hein? Mas de que importa? Não serve minha garganta pra cantar? - QUEIMO. Não servem meus pulmões pra soprar? - TORRO. Não servem pra tocar esses meus artríticos dedos? - AGARRO com eles um novo cigarro e meto bronca.
E que desça rasgando. E que a porra do porro seque tanto tudo ao ponto de que já nem tenha lágrimas pra chorar por esse futuro que nunca foi (nem nunca será).
Será? BASTA DE ESPERANÇA. Para mim agora tem que bastar uma verborragia que tira do peito os sentimentos e joga no papel de qualquer jeito, que me deixa zonza e vazia, insone, de olhos abertos no escuro. Sem medo, sem amor... Vazios.
Luz dos olhos se esmaecendo, tremulando. E se o amor só é bom se doer... Bom, bom. Não sinto amor, nem medo, nem dor. Só sinto fome. Pergunte ao meu orixá, se não me crê. O amor só é bom se doer. E eu não sinto amor, nem medo, nem dor.
Eu sinto fome. Com nome e sobrenmome. Começa com A e termina com E. Começa com R e termina com A. Você tem fome de quê? Já lembrou do que é?
Gira-Gira-Gira
Meu refúgio é a apatia. Pra não sentir nada além de fome, pra não sentir que não sinto (nem sequer se quiser, amor), pra canalizar essa água suja de chuva que escorre pelas frestas de globos inchados. Serve pra tudo, minha gente! É mais barato que banana, é mais útil que bombril, mais chique que Dior. Mas corra pra pegar a sua, antes que acabe o estoque, antes de ver o sorriso, antes de sentir o toque. A promoção só é válida enquanto durar a poker face, enquanto a tartaruga não sentir o peso do casco que lhe protege dos céus e tanto lhe tarda os passos.
Mas não sou a tartaruga. A ansiedade corrói minhas unhas como ácido sulfúrico. Corto, lixo. Bem pequenas, para fingir que não. A garganta queima de bílis e raiva, de choro preso, de palavras não ditas. E o que diria? Eu não sinto nada! Só mesmo fome... Dilacerante. E é provisório, ouça bem! Anote do pouco que falo o menos que digo. Um dia desapego também desse último sentimento, dessa última fraqueza nutritiva.
Abdico dos dois maiores prazeres pela sorte de empacotar as malas do cachorro preto que me fez companhia. Tem andado queto, murcho, pedindo com olhos implorantes que não lhe hagam caso. Ainda assim, é minha única e constante companhia. O quarto, a sala, tudo estará tão vazio quando ele se for... Então entra o terceiro prazer. Sempre pela porta dos fundos.
Temporário ou definitivo, é o que sobra quando a falta de sentido te arranha e te cobra. O que? Um pedacinho desesperado da sua pele, migalhas de pulmão, conpulsões compulsórias, auto-aplicadas. Só mesmo o terceiro prazer. Do irmão ou da irmã. Já nem sei qual contém mais conforto, já nem sei se me importa.
Mas não soframos na véspera da escolha. Não me chamam ansiosa? Fica no limbo, então, onde o tempo não alcança. Quando a hora chegar, eu decido.
O gira-gira gira
O gira-gira roda
O gira-gira da minha cabeça só piora
Mas não sou a tartaruga. A ansiedade corrói minhas unhas como ácido sulfúrico. Corto, lixo. Bem pequenas, para fingir que não. A garganta queima de bílis e raiva, de choro preso, de palavras não ditas. E o que diria? Eu não sinto nada! Só mesmo fome... Dilacerante. E é provisório, ouça bem! Anote do pouco que falo o menos que digo. Um dia desapego também desse último sentimento, dessa última fraqueza nutritiva.
Abdico dos dois maiores prazeres pela sorte de empacotar as malas do cachorro preto que me fez companhia. Tem andado queto, murcho, pedindo com olhos implorantes que não lhe hagam caso. Ainda assim, é minha única e constante companhia. O quarto, a sala, tudo estará tão vazio quando ele se for... Então entra o terceiro prazer. Sempre pela porta dos fundos.
Temporário ou definitivo, é o que sobra quando a falta de sentido te arranha e te cobra. O que? Um pedacinho desesperado da sua pele, migalhas de pulmão, conpulsões compulsórias, auto-aplicadas. Só mesmo o terceiro prazer. Do irmão ou da irmã. Já nem sei qual contém mais conforto, já nem sei se me importa.
Mas não soframos na véspera da escolha. Não me chamam ansiosa? Fica no limbo, então, onde o tempo não alcança. Quando a hora chegar, eu decido.
O gira-gira gira
O gira-gira roda
O gira-gira da minha cabeça só piora
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Quinha do Mês
Talvez a vontade de uma aventura qualquer seja só para tapar o buraco da dúvida, da falta de propósito da existência. Por que tamanho medo da incompetência e da mediocridade? Leonices, talvez... Talvez... Talvez esteja só cansada de ser... Eu! (?) Demasiados anos de convivência.
Não quero (mesmo que sequer fosse uma possibilidade) usar dele nem de ninguém pra tapar buracos que eu mesma cavei no solo do que é meu caminho. Mesmo que por pura e mútua diversão... Não sei, seria antiético. Quebraria essa delicada linha tênue desse ralo e frágil código da pouca honra que me resta.
Já não consigo diferenciar vontade legítima de carência da ausência fria do afeto. Talvez só necessidade de me sentir desejada, de chamar a atenção (como um cone de trânsito: perigo!), de ser a menina dos olhos de alguém.
Mesquinhezes da alma humana. Como a alegria agressiva de ver sofrer, pelos mesmos motivos mesquinhos, quem um dia já me arrancou lágrimas secas da garganta ardida com ponta de pena. Quase sem nem ter tinta. Mesquinhez. Unha catando migalhas de sujeira debaixo de unha pra jogar na cara. Terra e sangue. Terra e pele que arranhei das costas de qualquer um num grito mais de raiva que de satisfação.
Mesquinha, eu? Sim. Quero é distância de abundâncias que não sejam de silêncio, jazz e solitude. De tanto ansiar já não quero abraço que não o do meu travesseiro, não mais visões que não o ninho intocado do telhado da minha janela, talvez já abandonado depois de tantos meses de ausência minha. Ausência mesquinha, como tudo mais.
Não quero (mesmo que sequer fosse uma possibilidade) usar dele nem de ninguém pra tapar buracos que eu mesma cavei no solo do que é meu caminho. Mesmo que por pura e mútua diversão... Não sei, seria antiético. Quebraria essa delicada linha tênue desse ralo e frágil código da pouca honra que me resta.
Já não consigo diferenciar vontade legítima de carência da ausência fria do afeto. Talvez só necessidade de me sentir desejada, de chamar a atenção (como um cone de trânsito: perigo!), de ser a menina dos olhos de alguém.
Mesquinhezes da alma humana. Como a alegria agressiva de ver sofrer, pelos mesmos motivos mesquinhos, quem um dia já me arrancou lágrimas secas da garganta ardida com ponta de pena. Quase sem nem ter tinta. Mesquinhez. Unha catando migalhas de sujeira debaixo de unha pra jogar na cara. Terra e sangue. Terra e pele que arranhei das costas de qualquer um num grito mais de raiva que de satisfação.
Mesquinha, eu? Sim. Quero é distância de abundâncias que não sejam de silêncio, jazz e solitude. De tanto ansiar já não quero abraço que não o do meu travesseiro, não mais visões que não o ninho intocado do telhado da minha janela, talvez já abandonado depois de tantos meses de ausência minha. Ausência mesquinha, como tudo mais.
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