domingo, 16 de agosto de 2015

“DOMINGO”

Não, eles ainda parecem não ter certeza de que não sou daqui. Alguns, imagino, pensam que sou de fora, mas não demonstram ter noção do quão longe é isso. Outros só não sabem de nada, at all.  Aparentemente o meu uso confuso das línguas nativas e imensa incapacidade de adaptação às constantes mudanças de tendência da “moda” não tiveram destaque suficiente para me denunciar.
Acho que foi por isso que decidi registrar minhas experiências. Acho que talvez eu esteja cada vez mais me acostumando com as coisas daqui, acreditando na estrutura de vida na qual os seres daqui se baseiam para enxergar a realidade. É fácil demais de acreditar: as pessoas têm grande dependência de seus corpos e sentidos biológicos na percepção do universo e esses sentidos são tão potentes que inebriam a visão livre do meu espírito e me submergem em emoções e sentidos e axiomas, como quem mergulha em água.
Tenho medo de me perder nestas águas e perder a noção do que é estrutura construída e o que é realidade. Tenho medo de que este cenário se torne cada vez mais real em minha mente e que, como os seres daqui, eu seja o ator que se torna seu personagem. Acho que talvez isso já esteja acontecendo. Minhas metáforas já vêm das experiências desse mundo, meus veículos de expressão e registro de ideias já são daqui e, cada vez mais, uso minha mente biológica e mortal para armazenar as informações.
Ainda é confusa pra mim a maneira com que medem a dimensão do tempo. Tendem a dividí-la em pedaços que se repetem em determinado intervalos e dão nomes às partículas desses intervalos. O intervalo de rotação do planeta é chamado de dia e divide-se em vinte e quatro pedaços, o intervalo de rotação do planeta em torno da estrela Sol é denominado ano e por aí vai.
Existem também intervalos que não têm relação com fenômenos naturais e são estes os que mais me intrigam. A “Semana” é um intervalo composto de sete “dias”, que se repete num looping infinito, e cada um desses dias recebe um nome específico em cada língua. Este é um ciclo peculiar, que parece ditar toda uma rotina social controlar de maneira bastante intensa o rítmo de vida das pessoas e dos seus afazeres.
Agora eu estou olhando para a rua da cidade onde vivo. Cidade como eles chamam um agrupamento de moradias de seres e locais onde serviços e trabalhos são prestados. Enfim, não serei capaz se explicar toda e cada expressão desse mundo em questão. Seria repetitivo e, até certo ponto, inútil, vez que sou o único ser a ler estas memórias escritas. Creio que vou me limitar a escrever apenas sobre novas descobertas… Ou sobre as coisas que temo esquecer não me pertencerem.
Em todo caso, eu falava sobre as cidades. Sim, esses seres tendem a agrupar-se em locais fixos e muitos vivem vidas biológicas inteiras neste mesmo ambiente. Neste momento eu olho pela janela do lugar onde vivo e posso observar as vias de trânsito e árvores do lado de fora. As pessoas passam quase que despreocupadas, muitas num ritmo lento, e quase todas emanam uma certa leveza de espírito. É Domingo.
O Domingo é um dos dias da Semana. É um dia onde a maior parte das pessoas não se dedica a suas obrigações de produtividade social. No Domingo, a maior parte delas é regida por uma permissão invisível para relaxar e fazer coisas que as fazem felizes. O Domingo também é um dia que reserva certa melancolia durante o fim de tarde, quando o sol desaparece no horizonte visível. Sua luz reage com os componentes químicos da atmosfera, dando a ilusão de que o planeta tem um teto manchado de cores líquidas.
Não sei bem explicar o que é melancolia, nem mesmo o exato causador desse sentimento. Ele pode ser gerado por estímulo de quase todos os sentidos físicos e psicológicos das pessoas desse planeta e não é exatamente classificado como “mau” nem “bom”.
Acho que é por isso que a melancolia é o sentimento que mais me intriga e fascina. Talvez também por isso o Domingo seja a minha partícula favorita do intervalo Semana, estimulando-me a começar por hoje a escrita destas memórias. “Today I feel blue”. Hoje me sinto azul. Não que isso faça algum sentido.

Sinceramente,

Blue.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Bruja Luna

     Quase agosto. Tive sonho de bruxa na minha última noite vermelha. Mergulho no sonho, mergulho numa piscina de corais e toco o chão. São corais que poderiam me ter raspado a pele quando pulo do penhasco (abismo?) em seu encontro, mas neles só raspo meus dedos de leve, bem carinhosamente.
     Tive sonho de bruxa, mas lembro de tão pouco! O vermelho se vai e ela hoje veio azul, dizem. Não sei... Está escondida, mas me chama e tenho que ir pra rua. Vou em busca de um resquício de magia de sonho, magia de bruxa. Vou de preto, de casaco, de couro.
     Ela é a primeira coisa que vejo quando o vento me gela a cara. É quase agosto e ela é quase tão bonita quanto no sonho, mas bem menos. No sonho era prato de sopa, sopa de bruxa, meio laranjosa, toranja, avermelhada... Lua de bruxa. Aqui é lua de quase agosto, azul, não de cor, mas de sentimento. Melancolia de bruxa quase já sem sangue.
     Ando pela rua da Lavadeira, eu, bruxa. O shuffle não coopera e me encolho de frio, me recolho em pensamentos. Até que está bonita... Ela... A noite também. É quase agosto, afinal, e andar aquece os músculos das pernas e do coração.
     Amo a lua e amo a rua. Uma chama à outra e fazem um belo par na sexta-feira 31, que não é nem 13 nem agosto. Ainda. Sinto cheiro de um perfume bom, mas não tem ninguém por perto. Ele paira ali, como que congelado no ar de julho, esperando o mês certo para se dissipar.
     Chumaços de amarelo-dente-de-leão despontam das árvores, como juba pontilhada. Já não a vejo, estou de costas. Olho para cima e da sacada de um prédio despenca cachoeira de fumaça misteriosa, que se dissipa no ar como as lembranças do sonho de bruxa. Sinto cheiro bom de novo, agora de pão, mas tampouco há padaria por perto. Nem pão nem prato de sopa. 
     Viro a esquina, uma quadra, depois viro de novo e lá está ela. Estou quase em casa e é quase agosto. Já estou rodando quadras há tempos... Percebo que olhando pra ela não consigo tirar o rosto do ar da noite. A lua me chama à rua. Os jovens caminham para os bares, para o centro e eu sigo na contramão. Sei que hoje não é pra mim. É só 31, é só mês 7.
     Percebo que olhando para ela, farol do céu, jamais conseguiria entrar. Com custo, viro de costas e ando meia quadra. Esntro em casa sem olhar pra trás e sem me despedir. Ela já é passado e tenho sede de amanhã. Entro em casa. Agora sim já é agosto.

sábado, 8 de agosto de 2015

Velho, puído, antiquado

02:40 - Fantasio sobre o carro capotando na avenida.
15:30 - Estou trancada num carro comigo mesma.
21:20 - Ela me pede um beijo.
03:47 - Despejo de boca para boca suco de ironia, para matar nossa sede.
00:29 - É quase como se sentisse o cheiro de vitamina C, hidratante e mofo.
17:00 - Já não me lembro dos sonhos.
21:30 - Massageio suas costas finas.
10:33 - Eu já não tenho como agradecê-la.
02:24 - Estou trancada para fora de casa.
16:00 - O dia é insuportavelmente lindo.
23:04 - Chove.
03:51 - Suas palavras denotam culpa, o tom de voz pede desculpas.
06:41 - "Chá" para dois.
02:00 - Não estou chateada, só cansada e gelada.
07:20 - Que boa dupla já fomos.

A ORDEM DOS FATORES NÃO ALTERA O PRODUTO

03:09 - Fantasio sobre o pneu estourando.
22:34 - Ele entende o gráfico matemático e nos amamos por isso.
01:30 - Achei que era mais velho, mas só tinha 20.
04:32 - Rimos, tão leves de cansaço que já não podemos parar. É o primeiro de muitos sorrisos.
14:00 - Café. Coado.
20:30 - Ele fala de um livro velho, puído, antiquado, esquecido num táxi de madrugada.
05:33 - Café. Expresso.
22:40 - Ele sente calor, mas ela ainda não sente frio.
15:31 - Estou trancada num carro com um zumbi,
04:21 - Já não estamos a sós no estacionamento.
19:20 - Me sinto velha, puída, antiquada.
23:10 - Cantamos uma nostalgia em língua estrangeira, que significa tanto e não entendemos nada.
03:00 - Ele precisa de um cigarro.
11:40 - Não lembro dos sonhos.
22:12 - Ele me entrega um livro velho, puído, maravilhoso.

A ORDEM DAS CARONAS NÃO ALTERA O ENDEREÇO

00:00 - Ela tem um coração de pedra e um de carne, para suportar todos os tipos de sentimento.
05:04 - Nada é 24h nessa cidade.
02:32 - Estou trancada no carro com ele.
21:21 - Ela me beija.
03:31 - Perco a dignidade, mas ganho um trago.
00:50 - Achei que era mais velho, mas só tinha 15.
22:51 - Perco uma cerveja, mas ganho um gole.
10:30 - Chove no boxe do banheiro. Chove quente.
04:30 - Ele se engana, não estamos esperando um ônibus. 
23:12 - É quase como se estivéssemos no funeral.
04:13 - As cinzas se acumulam em volta dos meus sapatos.
02:20 - Fantasio sobre o outro carro destroçar minha porta.
16:30 - Chove dentro de mim, tão fino quanto as cinzas no chão do estacionamento. Durmo.
04:55 - Ele me explica o que é índigo pela cor do céu.
21:02 - Ela diz para tirar um adorno toda vez antes de sair de casa.
02:46 - Estou trancada dentro da minha cabeça, a boca costurada pela apatia.
17:14 - Digo para ela o quanto o céu por vezes explica o conceito de azul,

A ORDEM DOS ACONTECIMENTOS NÃO ALTERA A RESSACA

07:01 - Houveram mais bons momentos do que achava possível recordar.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Hairy Frog and The Tadpoles

Good luck, motharfackar
De gaxteixon avec moi
Na hora eu posso até não brigar

Mas vendetta é um prato
Que eu como devagar
Pedaço por pedaço pra melhor saborear


E sentir um gosto
Um pouco diferente
Nessa boca minha
Tão amarga


Good vibes sunday morning
É rarité de se encontrar
O dia inteiro é um grande cipah

Mas os hermano, nothing nothing
Come together pra queimar
E apesar do cansaço a zoeira é wunderbar


E o domingo ganha
Um gosto diferente
Da segunda-feira
Tão amarga


Sem Ratatá....


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Na avenida o samba popular - 13/07/15

 Vai passar, vai passar, vai passar. Espero as horas, os dias, espero o pão torrar no forno. Sou analfabeta do tempo, então só espero. Vai passar. As nuvens, o sentimento, vai passar.
     E se estou no ponto, e se abre-se um rombo na minha barriga, no meu pensar, no plano que fiz pra me reabilitar. O ônibus? Vai passar. Nem que eu tenha que correr atrás dele. Nem que eu corra até que a velocidade seja suficiente para fazer a aerodinâmica  funcionar nas minhas asas tímidas e atrofiadas. Mas vai passar. O medo vai passar.
     E se eu conhecesse a língua do tempo pediria só pra ele ser menos contínuo, constante, implacável... Só mesmo pra que fosse viável essa coisa de administrar. Alongar umas determinadas horas, e em outras correr em disparada (pra qualquer direção, meu deus). Mas vai passar.
     Não controlo, que fique claro, se rápido ou devagar. Mas vai passar. Sinto-me como quem senta-se no banco de trás de um carro chique ("num fim de tarde de domingo..."), de olhos fechados pra não ver o caminho (nem os cadáveres de pipa). O rádio ligado pra nem perceber a velocidade. Janelas fechadas pra nem ouvir as vozes de quem passa. E vai passar.
     E isso talvez seja até confortável. Só sentir e esperar. Batucar um ritmo com os dedos, cantarolar de boca fechada pra não deixar o olho chorar, o soluço fazer pular o peito. Sentir a dor em cada pedaço, até o final, sem analgésico. Até porque vai passar. Vai passar. Vai passar.

Na avenida o samba popular.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Palito de Dente




     Começa com A e termina com E. Não te deixa dormir, te faz vomitar. Já lembrou do que é? Faz o Kama Sutra inteiro com o travesseiro sem sentir sono, muito menos tesão. A mente se recusa, abusa, diz que não, não, não, não, não... "Não esqueço, nem durmo, nem dou uma única foda (metafórica ou...)". Senta e toma o chá da meia noite com a imaginação. Mas não é chá; é café, e a cola dos olhos está seca.
     Começa com R e termina com A. Não diz sempre onde onde veio nem quando vai parar. Começa no peito, termina sem ar. Já lembrou do que é? A língua começa amarga e não é de café. O estômago trava e não mais vomita; borbulha ladeira acima até queimar tudo. Um palito de dente atravessa a garganta e não passa um fio de azeite, não passa nem grito (de desespero ou de...).
     Começa com A e termina com E. Arranca no dente as cutículas, unhas, quer esfolar o pé. Não se apaga mais com cigarro aceso, não se acaba mais com o corpo preso... Só piora pra cada lado que a noite avance. E a noite... A noite é lembrança, é substantivo, é lindo, é poesia, é uma criança, mas não pra sempre. Porque acima de tudo noite é tempo, noite é verbo, e o tempo não para, só piora, se passa ou não passa, só piora.
     Começa com R e termina com A. É uma chama que nunca apaga, só vai diluindo pelo corpo quando cai uma única lágrima. Só enfraquece com a dor de cabeça que dá sentir essa filha solteira de pais separados (apesar de molhados, vermelhos, atentos). O solvente é ela destilada, venenosa. Tanto faz, incha, que esquece. Talvez por isso, olhos cansados. Progenitores cogenitores da solução em conta-gotas que escorre queimando. E a mãe não tem rima porque com ela não se escreve poesia, só se cospe o sangue e os pedaços do palito quebrado.
     Se do cuspe tuberculoso formam-se letras, isso já é por conta da madrugada, da sorte, da fé. Da bondade de quem lê... Se não dorme também, se já nem pode vomitar. Se começa com A e termina com E, se começa com R e termina com A. (Não me faça dizer) Já lembrou do que é?

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Odile

     "Esse é o meu lugar." pensou ela, no exato momento em que pôs um pé para a frente e levou um encontrão de alguém que passava com uma bandeja cheia de módicas porções de algum crustáceo adornado com molho. "Aqui nesse engasgo de encruzilhada".
     Desculpas foram murmuradas e a bandeja seguiu flutuando acima das cabeças, cheias de laquê ou gel de cabelo.
     O pensamento lhe ocorreu, não porque gostasse de crustáceos, ou mesmo do garçom: as palavras lhe vieram meio que como sugestão  do universo, metalinguagem do próprio recado que lhe estava dando.
     "Por mais que eu ande, dance, circule e eventualmente coma módicas porções de petiscos com molho, sempre acabo passando de novo neste ponto... Estagnada, o fluxo impedido." concluiu.
     A mente trabalhava a todo vapor, percebendo o ambiente, enquanto apenas uma parte tinha ciência do pensamento perturbador e tomava nota, como um lembrete deixado na porta da geladeira.
     Ela gostava do fluxo natural das cadências. A fechada de caminho quebrara seu ritmo, que ia embalado pelo ruído das centenas de vozes (eufóricas, talvez até histéricas) que eram emitidas e se batiam e rebatiam diversas vezes nas paredes do imenso recinto. Recuperou-se e retomou a linha principal de seus pensamentos, que envolviam praguejar contra o volume alto demais daquela reprodução estourada do que um dia alguém chamara de música.
     Envolviam também uma urgência não verbal de sentar-se para calar os pés, massacrados por sapatos de salto que ela nem ao menos queria estar usando. Apesar de todos os incômodos, seu saldo de sensações era inexplicavelmente positivo. Talvez fosse um certo contágio com a ideia de grandeza e importância que todos pareciam ter de si mesmos, como se acreditassem estar num baile da nobreza do século XVII. Essa fantasia também a penetrava, numa osmose catalizada por docinhos graciosos, módicas porções de crustáceos com molho e bebidas servidas em copos de cristal.
     Sim, bebidas! Elas ajudariam a neutralizar a dor e seu senso, por demais críticos.
     "Bem que eu sentia falta de alguma coisa...".
     Houve certo rebuliço e exclamações de prazer na parte do seu cérebro que se sentia um tanto quanto seca, como se vários publicitários trabalhassem num escritório lá dentro e houvesse um boato de aumento. Um pouco de embriaguez talvez tornasse seu peso mais leve sobre os saltos e embaçasse os ouvidos, passando também sobre os olhos um filtro dourado como as sandálias de quem usa estampa de oncinha.
     Saiu andando, agora de maneira mais  firme e decidida. Era sempre constrangedor andar sem rumo numa festa. Todos pareceiam ter coisas muito importantes ou divertidas para fazer.
     "Bom, agora também tenho." gracejou consigo mesma, satisfeita. Aliás, quase: a real satisfação viria quando tivesse cristal e líquido âmbar entre seus dedos. Poderia até ficar parada, blindada, bebendo em silêncio... Verdadeiro luxo! Nada autorizava mais alguém a ficar parado numa festa do que ter um copo nas mãos.
    Com o repuxo irônico dessa sabedoria entortando os lábios ela foi desviando dos vários paletós e vestidos que ocupavam os espaços, existências febris pulsando dentro deles. Ela quase não reparou em seus rostos. Os olhos corriam, metódicos, em busca de gravatas borboleta - símbolo extra oficial de servidão, que abraçava tal qual coleira o pescoço dos garçons. De forma automática, descia das gargantas para as bandejas, eliminando sistematicamente as que continham alimentos.
     Buscava algo mais interessante para sua própria garganta do que crustáceos, gravatas ou molho, e de preferência em não tão módicas quantias. Avistou afinal taças compridas, cheias de um líquido mais claro e borbulhante que o desejado e projetado por seus pensamentos.
     "Mas serve." pensou, uma sensação já agradável lhe tomando.
     - O senhor me vê uma taça, fazendo o favor? - pediu ela, tentando não deixar transparecer a sua avidez. O garçom olhou-a de cima a baixo e com a mão livre ajeitou a gravata borboleta, como quem coça uma chaga.
     - Sinto muito, mas a senhorita é obviamente menor de idade e não posso te dar bebida.
     A isto, a princípio, ela não soube como reagir. Aquilo nunca lhe acontecera na vida, nem mesmo quando era menor de idade. Forçando um sorriso simpático, ela perguntou:
     - E quantos anos o senhor acha que eu tenho, pelo amor de deus?
     Talvez captando uma parte da ironia mal contida da pergunta, o homem hesitou por um segundo antes de responder, ensaiando um sorriso triunfante:
     - Quinze. Uns quinze no máximo.
    Dessa vez ela não pôde se conter. Um riso lhe sacudiu de tal forma que ela mal reconheceu a própria voz. Enxugando os olhos, apanhou a taça que lhe foi estendida e limpou o riso com um suspiro e um gole. Algo no sarcasmo dos olhos, no cansaço da sua risada, convencera o garçom melhor do que um documento de identidade faria. Não se pode falsificar esse tipo de coisa na impressora de casa, afinal de contas.
     Afastou-se do garçom (e da sua bandeja) meio a contragosto. Gostava do peso da taça nas mãos, mas gostava mais do peso do líquido descendo pela garganta e se alojando no estômago. Seu cérebro contorceu-se de alegria, vibrando como se no escritório todos estivessem assistindo a um jogo de futebol no meio do expediente. Gol. Logo precisaria de refil. Controlou-se para não beber muito rápido e fazer render o momento em que podia parar de fingir estar interessada em qualquer coisa que as pessoas estivessem usando para se entreter. Ah, abençoados minutos!
     Não que ela não gostasse de festas... Estas eram, afinal de contas, um habitat natural de bêbados e ela gostava muitíssimo de pessoas embriagadas. O que mais a incomodava nesse tipo de evento era o quê de histeria na pulsação das pessoas, desesperadas para se divertir. O que festejavam, afinal, se precisavam catar migalhas de alegrias artificiais?
     "Por favor, não tente puxar conversa. Por favor, por favor, por favor..." pensou ela, ao notar a aproximação de um homem à sua esquerda. As palavras se repetindo na cabeça como uma prece, enquanto tentava evitar contato visual. O esforço mostrou-se inútil, como de costume. O homem, não percebendo seu desconforto (ou simplesmente ignorando-o por comodidade) tratou de colocar-se aso seu lado e olhou ao redor em busca de um assunto qualquer para lhe falar.
     "Se ao menos esses copos viessem com um sinal de 'ocupado', como quartos de hotel ou plaquinhas de rodízios..." resmungou consigo, enquanto fazia um contorcionismo para parecer desconhecer a tentativa dele de comunicar-se com ela. "Ao menos, pelo cheiro ele parece bêbado. Talvez seja até uma conversa entretível." pensou, tentando consolar-se.
     - Festão... - começou ele, aparentemente cansado de procurar um motivo mais digno para quebrar o silêncio.
     - É. - disse ela, virando-se para ele, enfim.
     Com o terno já aberto e a gravata frouxa, o homem devia ter seus 40 e poucos anos. O rosto levemente avermelhado e os olhos brilhantes confirmavam o que o cheiro sugerira: ele estava bêbado como um peru de natal. Sentindo sua simpatia crescer quase que automaticamente, ela acrescentou:
     - O buffet é de primeira.
     Quase arrependeu-se do complemento quando ele, sentindo uma abertura, assumiu-se autorizado a intimidades:
     - Você bebe muito pra sua idade. - disse, algo entre risonho e repreensivo.
     "Haja!" gritou ela por dentro, sem poder impedir os olhos de se revirarem nas órbitas. Segurou a língua ferina, sem paciência para confusão, e lançou uma resposta ambígua:
     - Fazer o quê? Champagne bom da porra.
     - Você também xinga bastante pra sua idade...
     - E você parece ter bastante ciência dos dados do meu nascimento. - ralhou ela, agora visivelmente irritada - Vamo lá, conte-me mais sobre as minhas primaveras!
     O homem engoliu em seco (talvez não tão seco assim) e balançou de leve para trás como se a raiva tivesse lhe atingido e desequilibrado tal qual corrente de ar. Depois de piscar algumas vezes em silêncio, soltou um arroto de boca fechada e tentou outro caminho:
     - Não provei... Prefiro Whisky. - retomou o tom de voz já mudado.
     Ela respirou fundo e, olhando para a própria taça, já quase vazia, matutou se saía e o deixava falando sozinho ou se dava chance para a conversa. Acabou optando pela segunda opção, afinal Whisky era bom demais.
     - Eu também, mas não achei e minha garganta estava bem seca...
     - Posso te mostrar onde tem. - ofereceu ele, abrindo um sorriso vesgo. - Peguei tantos que o garçom já sabe até meu endereço.
     - Parece ótimo. - riu ela, virando a taça de champagne e colocando numa mesinha com outros copos e pratos vazios.
     - O nome dele é William e você não acredita em como eles pagam mal... - continuou ele, enquanto abriam caminho pela festa, conversando.
     "Arranjei quem me aguente por hoje" pensou ela, satisfeita consigo mesma e com a noite. Módicas porções de interação social não lhe fariam mal, no fim das contas. Principalmente se acompanhadas de não tão módicas quantias do líquido âmbar que era tão aguardado pelos escritórios secos da sua mente.