segunda-feira, 13 de julho de 2015

Questões Vizinhas

Três bêbados e uma equilibrista
Discutindo esperança com certa ressaca
Sentados em cima do muro da vida
Assistindo a vizinha, sozinha, passar

Ai, que a vida é uma grande vaca
Que muito se ordenha por pouco leite
No sétimo dia descanse e deite

Ai, que o mundo é velho e sem porteira
Nem eira, nem beir
E quem desce a ladeira aposta no azar

Três bêbados e uma equilibrista
Discutindo a ressaca com pouca esperança
Sentados em cima do muro vizinho
Assistindo, sozinhos, a vida passar

domingo, 12 de julho de 2015

Só mesmo pelo literário - 19/06/15

Porra, moleque! Que decepção.
Achei que talvez você fosse, iria. É o fardo do ser sonhadora demais... Fadada às frustrações intrínsecas ao processo.
Será que talvez você um dia se atira no escuro tão fundo quanto eu? É que existem muitos tons de preto, de negro, de escuro.  Achei que talvez você chegasse a um deles, mas seu corpo leve e jovial apenas arranhou a vítrea superfície do bizarro, que é tudo o que faz sentido. 
Porra moleque, achei que você tinha sentido. 
Sua voz falha em falsete no não. Achei que era biológico, mas talvez seja de vivência. Seu silêncio pleno, achei que era reflexão. Talvez os dois, talvez só dormir. Talvez seja falta do que dizer, do que pensar. 
Porra, moleque, imaginei um leve ressoar... 
Da sua voz falando uma qualquer coisa, da sua boca estalando; você nunca me beija, não adianta fingir. E  quando tentou, ai, eu bem percebi. Forçado, vagaba, bem "disgraçado".
Só queria mesmo que eu fosse embora. Pra onde? Bem, qualquer lugar que lhe fosse distante e imaginariamente confortável. Pra que se sentisse melhor, digníssimo, triste. Agoniado.
Porra moleque, você já não sabe? 
A bad é eterna, concreta, está aí, moça. Eu tô e o caio acompanha meu fardo. Ah, pequeno parvo, moleque, menino. Já não sabe a magnitude do desatino? Chega ao ponto em que pensar só faz borbulhar e fumaçar as viscosidades da cabeça confusa, triturada.
Porra, crianca, moço..............
Curumim. Desisto de me fazer entender, ao menos assim. Fico sempre na beira do entendimento e da boa vontade e ao mesmo tempo em que estou tão cansada do "insisto"...
Tu vens, tu vens.... E é uma sombra projetada na esquina. Embora seja já certo, não desisto. Preciso de mais horas no dia. Às vezes minuto algum. Queria estar num outro mundo, planeta - como Júpiter ou Saturno - mas já estou nos seus sinais.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Odette

    ... olhava a rua através da redinha da janela da sala. O parapeito ficava bem na aultura da sua cabeça, mas ela usava-o para se pendurar com os braços, escalando a parede com os pés. A mãe geralmente brigava quando ela fazia isso. "Suja a parede", ela dizia, mas Odette tinha acabado de tomar banho e seus pés lhe pareciam bem limpos. De qualquer forma, não havia ninguém ali para brigar com ela, o que a deixava bem à vontade para pisotear a parede o quanto quisesse.
     A menina gostava de tirar os pés do chão, como os pássaros. A mãe dizia que seu nome era Odette por causa de um pássaro. Ela não entendia muito bem o porquê, afinal, era um pássaro muito estranho: ele nadava, tinha o pescoço comprido e belas asas brancas, mas era também uma menina que dançava com uns sapatos esquisitos. Odette não sabia como ele colocava as patinhas no sapato, mas sabia, sim, que seus pezinhos preferiam ficar livres e bem leves, com os dedos soltinhos.
     Escurecia do lado de fora. Pela janela dava pra ver as manchas coloridas do pôr-do-sol e nuvens fofinhas que iam se espalhando e se dissipando, como os pensamentos da própria Odette, quando estava com sono. A menina parou um pouco de se dependurar e começou a observar o céu. "Ser uma nuvem deve ser bom", pensou. "Elas são branquinhas como pássaros, e voam também". Decidiu então que conversaria com a mãe e pediria pra se chamar Nuvem ao invés de Odette. Era mais bonito e, no final das contas, dava no mesmo.
     Satisfeita com sua decisão, ela afastou-se da janela e começou a treinar movimentos de nuvem, enchendo as bochechas com ar e mexendo os braços bem devagar. Experimentou tirar um dos pés do chão, mas desequilibrou-se e caiu. Levantou-se e voltou a tentar. Pegou bastante ar dessa vez, abriu bem os braços e todos os dedos e levantou o pé esquerdo.
     Sentiu lágrimas vindo aos olhos quando seu corpo bateu no chão, flácido. O choro e a raiva vinham menos pela dor da queda e mais pela frustração do fracasso; a humilhação do som dos ossos batendo contra a madeira, que anunciava sua derrota para toda e qualquer formiga que passasse por ali. Odette levantou-se, desajeitada, o rosto queimando de vergonha. Soluçou por alguns instantes, no trâmite da decisão quase inconsciente entre enroscar-se no colo de alguém ou manter a dignidade. A falta de controle sobre as próprias glândulas, no entanto, decidiu por ela e a menina correu rapidamente até a cozinha, abrindo o berreiro.
     Zuzu estava de costas, lavando pratos, quando Odete entrou pela copa, já tomada pelo choro. A mulher se virou, enxugando as mãos. "Que foi, meu anjinho? Ô... O que aconteceu?" perguntou, se abaixando e tomando a menina no colo, com ternura. "Pronto, venha cá, venha! Precisa isso não, calma! Conte pra Zuzu o que aconteceu".
     Odette se aninhou nos braços da mulher e afundou a cara molhada no seu ombro forte. Queria explicar o que sentia, o treinamento pra ser nuvem, a vontade de voar, mas a choradeira ainda deixava sua boquinha trêmula demais pra emitir consoantes e todas as suas vogais saíam cheias de vibratto e e lágrimas. Sentiu que Zuzu levantava e caminhava e o movimento, externo e independente do seu corpo, a acalmou.
     "Respire fundo comigo, vá!" Pediu Zuzu, carinhosamente, e começou a inflar o peito e fazer barulho com o ar que entrava e saía de sua boca. A menina começou a fazer o mesmo, inconscientemente guiada pelo som da respiração de sua protetora. A calma foi tomando conta dela e, entre um soluço e outro, foi se sentindo cada vez mais preenchida pelo vapor da uma nuvem serena.
     "Pronto, me diga o que aconteceu, meu passarinho." a voz retumbava pela caixa toráxica de Zuzu e a menina a escutava abafada e aconchegante. Entre soluços ocasionais, conseguiu reunir ar suficiente pra dizer um tímido "Eu caí" que lhe pareceu um tanto quanto patético. Sentiu-se um pouco envergonhada de chorar por uma coisa tão boba. Pararam no corredor. Com ar de reprovação preocupada, a muher começou a procurar em seu corpo por machucados. "Ô, minha filha, pra que isso? Já não lhe disse pra não ficar se dependurando daquela janela? Aí, ó, porque sua mãe briga..."
     A menina impacientou-se. Queria negar, explicar que não tinha se machucado por causa de janela nenhuma, que estava era treinando para ser uma nuvem e que voar era muito difícil. Porém, entrecortada pelos soluços e pela indignação, sua fala saiu mais como: "Não, Zu... É mui difíciu... Eu quiria... Nuvem... Não consigo... Vuá... Muinto difíciu..."
     Seu corpo tremia um pouco com o esforço e ele sentia alguma coisa escorrendo pelo nariz, dando uma coceira chata. Zuzu olhou-a com um ar derrotado, aquele de quem não consegue se aborrecer com pequenices e traquinagens. Limpou com um pano a mistura de fluidos so rosto da menina e a colocou no chão. Ofereceu-lhe a mão, que Odette apertou, e foram andando de volta para a cozinha.
     "Venha, que eu vou te dar um brigadeiro... Mas, ó: não fale nada pra sua mãe, viu? Segredo nosso. Esses brigadeiros aqui são da sobremesa de amanhã."
      O coração de Odette começou a bater mais forte e por um momento a menina esqueceu de todo o aborrecimento, das nuvens, dos pássaros e dos sapatos. Ela realmente adorava brigadeiro.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Mauerbauertraurigkeit

O gosto do café não tomado voltou à minha boca hoje, um tanto quanto amargado pelas lágrimas de uma corujinha que descobri estimar muito. Consolei sua dor com as palavras mais verdadeiras possíveis e ela descansou sua cabeça nos meus ombros, pesados pela culpa de já ter desejado que esse dia um dia chegasse.
"Ainda bem que vou embora" é um pensamento que muito me ocorre ultimamente e por ele eu nutro uma adoração, dependência mesmo. É como se eu percebesse que meu barco está furado justamente ao avistar a costa de um continente estranho. Exceto, talvez, que é meu porto que afunda e é a um barco - pequeno, instável - que me jogarei quando a madeira podre dos decks ceder sob maus pés. Rumo ao desconhecido.
     O desejo de ver-me cercada de mar é também contade de ver desaparecer toda vivalma. Um querer de silêncio, um querer de que ninguém me pergunte nada ou me peça para decidir qualquer coisa. Sei que não vai ter café pra mim tão cedo, amargo ou doce. Sei que o cheiro de pipoca já foi-se todo janela afora. Sei que estou só e sei que quero, apesar da saudade que vai apertar, estar só e apartada das vozes e rostos que conheço.
     Quero ter a oportunidade de ser lida por olhos mais imparciais, ter o privilégio e o desafio de ser barco sem lenço, sem vela e sem documento: só um nome pintado no casco e vontade de navegar.
     Apesar das unhas bem aparadas, minhas garras têm saltado pra fora e arranhado o que me é mais caro. Preciso parar. Preciso ir-me embora antes que abram-se fendas grandes demais, sulcos que afeição nenhuma preenche. Preciso ir embora antes que toque mesmo fogo nesse apartamento, no meu cabelo, no tanque de gasolina do carro:
     Preciso dar o fora e preciso que ninguém venha comigo. Talvez nem eu.
   

James - 18/04/15

     Será que é você quem vai arrancar novamente um calafrio de ansiedade? Em meio a tantas cores pastéis, tons de salmon e texturas vazias vou sentir de novo o granulado laranja que fará disparar o pulso e e obrigar a levantar vôo as borboletas cor de cobre que moram no meu estômago? Elas andam pousadas, morgadas, até, tão entediadas quanto eu ao olhar em volta.
     Não faço nem questão da insanidade que por vezes vem de brinde. Dispenso, no momento, a energia suicida, desvairada, que me carrega e até morro afogada qualquer dia desses. Nah, não faz falta, não agora. Reconheço a importância, talvez até certa função fisiológica, mas não aqui, não agora, não comigo. Tô de boa.
     Já uma tirinha um pouco maior que essas de três quadrinhos, não dispenso. Mas e você? Tá pra mais... Tá pra menos...? Será que sua xícara tem o exato tamanho pra minha quantidade de açúcar? Quem sabe a gente está no mesmo Violinista Verde, com todos os ingredientes e as medidas exatas para uma larica inesquecível, uma larica compartilhada...
     Só por diversão mais intensa; um riso um pouco mais sincero diante de uma piada um pouco menos sem graça. Nada de alianças de ouro. Afinal, pra que tantos anéis se só temos dez dedos e um punhado de anos nas mãos? Para bom mergulhador é possível explorar diversas profundidades sem precisar de ship nem relationship.
     Faça-me o favor singelo de ler minhas palavras como quem lê a carta de um naufrago entediado e cheio de vontade de explorar os mares. Decifre meus olhares (futuros) como quem olha pela lente de uma câmera tentando ver a foto. Por fim, por obséquio e por mim, leia meu corpo como um cego lê Braile... Mas com mais vontade.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Inaura

Esperei muitas coisas de você nas últimas semanas...

Imaturidade, confusão, um beijo, falta de vontade, uma resposta que nunca veio, um copo d'água... Só não esperava falta de respeito.

Tá certo que eu não deveria ter esperado nada disso, já que você nem nada me deve. Mas acho que você sabe que, às vezes, não é questão de escolha.

Acho (achei), também,  que você sabe (sabia) o quão angustiante é ser uma sala de espera. Fria. Vazia. Agoniada. E de todas as coisas que esperei sem ter direito, a única que eu tinha - já que é direito e necessidade inerente a quase todo ser humano - logo essa é que mais faltou.

Isso aqui... Não é uma bronca (deus me livre!). Não é tampouco um pedido, um desejo, nem uma espera (não mais). Só precisava, uma vez mais, dizer (escrever) o que eu sinto. É mais por mim mesma, pelo meu sossego, do que por qualquer outra coisa.

Na verdade isso pode acabar sendo um agradecimento. O vazio e o frio, dignos de um consultório de dentista, me lembraram o quão perigosamente infinitos podem se tornar uns poucos 9 dias; o quão desgastante, inútil e perigosamente eterno pode ser esperar por quem não faz questão de você. 

Te saúdo,

                        Evoé!


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Que Nem o Gato

     Era a festa da carne e havia um banquete ao seu redor. Saboreava o calor, o suor, o sal grudado na pele e a textura das roupas rasgadas dos outros bacantes. Eram milhares de corpos em transe rítmico, como um culto sagrado de 1984. Você entende perfeitamente o motivo, a vontade, o nome. Era a festa da carne.
     Em algum lugar haviam olhos. Atrás de você, na frente, em todos os lugares haviam vários tipos. Há um par que te perambula na consciência, oras aqui, oras lá, mas sempre (ou quase) ao alcance da vista. Ou sua ou dele. Tão novos, tão jovens, como que recém comprados. Eles te encaram, sem desviar randomicamente como os outros. Ele parece sorrir sem dentes e você foge... Não bem por um motivo, mas talvez sim.
     Nem você, talvez, diria. Uma certa inveja. Parecia que aquele mundo que tanto te confundia e devorava era terra de posse dele - a figura que dela se erguia - como que alheio, mas soberano de sí e das tremulâncias que eram tudo o que mais se via.
     Como se uma câmera de shutter lento, meio que bêbado, cortasse a gelatina do tempo e retirasse aquele momento como uma fatia de queijo. Todo o entorno estaria turvo, derretido, mas não ele e seus ombros e cabeça, despontando do rio de carne como o periscópio de um submarino. É dono do rio e dono dos olhos.
     Neles, os círculos de confusão de foco têm raio tão ínfimo (e trovão delicado, quase inaudível) que a luz que ali se esbarra e reflete pra você forma uma imagem nítida, mas tão nítida que não se vê só teu rosto (desfigurado pelos êxtases contínuos), mas todo um oceano de coisas. São como espelhos que só mostram o que está dentro, e a imagem que produzem, por sua vez, é tão nítida, que nela é possível mergulhar.
     Lá dentro, na lógica de uma boneca russa, tem um lago negro, numa clareira, e as águas são tão calmas que parecem ser melaço quente, soltando vapores entorpecentes, tornando indistinguíveis as árvores ao redor da clareira. E esse é também reino dele. E é como se, na verdade, real fosse aquilo, e a alucinação profana e as carnes e o festival de bestialidades no qual estão você e os outros bacantes fosse como um filme que o diverte, mas não lhe toma o controle.
     Você não para de olhar porque não consegue, não confia, não acredita em quem não se desespera. Só confia em quem sente frio; lição bem aprendida, ensinada por outros verões. Mesmo assim, apesar disso, uma certa inveja. Nem você diria. Talvez sim, talvez muito mais.