A iminência da morte é o que move o ser humano. Como um todo. A viver, a seguir, a fazer arte.
A morte é o juízo final, mas não no sentido punitivo da palavra, senão que como uma redenção para todos os seres humanos (ou não). Nós, seres que jamais passarão incólumes pela existência, temos como premissa e promessa uma noite sem despertadores no dia seguinte.
E é por isso que acordamos todas as manhãs.
Ou tardes, ou noites. É o famoso livre arbítrio. Benção considerada por muitos como maldição... E horas é. Horas que são determinantes para dissociar liberdade de felicidade. Horas que se transformam em dias, que se transformam em anos, que se arrastam ou escorrem, a depender da hora, do clima. E depende do que você quer, do que você crê, se você ora. E, ora, quem sou eu pra falar do final, mas por hora:
"Fate
Up against your will
Through the thick and thin
He will wait until
You give yourself to him."
Como as notas de uma melodia que no início não fazem sentido, mas depois começam a soar familiares.
segunda-feira, 31 de julho de 2017
Dura Recostura - 04/04/2017
Não diga que o que eu disse
Não fez sentido, não!
Às vezes eu me deixo
Levar pela emoção
Não diga que o que eu fiz
Me fez perder a razão
Às vezes a flecha
Vem sem direção
E me rasga sem
piedade
E essa dura re costura
Tem requinte de maldade
E o que eu disse foi tudo
verdade
Mesmo que seja loucura
Pra tua realidade
Não diga que o que eu fiz
Foi motivo de vergonha
Talvez, no meu limite,
Seja a forma que eu me imponha
Não diga que o que eu disse
Foi por causa da maconha
O certo pra você é só
"brigada" e "disponha"
E eu não quero tua
piedade
E essa tal condescendência
Tem requinte de maldade
Seu diploma de
sanidade
É carimbado e assinado
Por Doutor Marquês de Sade
Não fez sentido, não!
Às vezes eu me deixo
Levar pela emoção
Não diga que o que eu fiz
Me fez perder a razão
Às vezes a flecha
Vem sem direção
E me rasga sem
piedade
E essa dura re costura
Tem requinte de maldade
E o que eu disse foi tudo
verdade
Mesmo que seja loucura
Pra tua realidade
Não diga que o que eu fiz
Foi motivo de vergonha
Talvez, no meu limite,
Seja a forma que eu me imponha
Não diga que o que eu disse
Foi por causa da maconha
O certo pra você é só
"brigada" e "disponha"
E eu não quero tua
piedade
E essa tal condescendência
Tem requinte de maldade
Seu diploma de
sanidade
É carimbado e assinado
Por Doutor Marquês de Sade
Caderno Novo - 05/03/2017
Pensei que esse caderno começaria numa viagem, mas começou numa privada, numa ressaca de Whisky e amendoim. Talvez tivesse de ser assim... Seria romântico demais dizer que tudo começou num trem a Berlim ou numa barraca cheirando a capim.
Às vezes até me acontecem essas coisas, mas nunca é tão glamouroso. Há. Talvez isso tire o meu da reta quando se trata da tênue linha que separa o indie do under, o nutela do raiz.
A cidade me oprime, as cadeiras me deprimem e já não aguento mais esse semestre.
Mas venho melhorando.
Nada como dar alguns foda-se e escolher focar na boa pra ficar de boa. É estimulante. Foco em ir pra frente, criar, produzir, realizar... É a influência de Saturno, cipah.
#oremos
E que o próximo semestre seja mais bem alocado.
#oremos
E que eu de fato leve a Berlim esse bendito caderno.
#oremos
E que eu possa a cada dia me amar mais e ser também pessoas melhores
#seremos
E que eu possa preencher essas páginas com palavras dignas de quebrar o silêncio (ou ao menos de riscar o papel).
Amém.
Às vezes até me acontecem essas coisas, mas nunca é tão glamouroso. Há. Talvez isso tire o meu da reta quando se trata da tênue linha que separa o indie do under, o nutela do raiz.
A cidade me oprime, as cadeiras me deprimem e já não aguento mais esse semestre.
Mas venho melhorando.
Nada como dar alguns foda-se e escolher focar na boa pra ficar de boa. É estimulante. Foco em ir pra frente, criar, produzir, realizar... É a influência de Saturno, cipah.
#oremos
E que o próximo semestre seja mais bem alocado.
#oremos
E que eu de fato leve a Berlim esse bendito caderno.
#oremos
E que eu possa a cada dia me amar mais e ser também pessoas melhores
#seremos
E que eu possa preencher essas páginas com palavras dignas de quebrar o silêncio (ou ao menos de riscar o papel).
Amém.
Tira de Letra - 10/04/2017
Ser BR não é mole, ah!
Ser BR não é mole, bê.
Ser BR não é mole, cê não sabe...
Tem que ter, tem que ler, tem que ver
Tem que ter jogo de cintura
E saber ler a conjuntura
Não fazer confusão:
Tem amigo que é brother
E amigo que é irmão
Tem que ver o que é cultura
Entender beleza pura
(k pra nós) Só dinheiro é que não...
Mas geralmente a gente
Ginga com a situação
Se tá na chuva é pra se molhar
E às vezes comer um bocado de agá
Mas no dia em que não gerar
Tira de letra, sai na egípcia
E joga um cipah
Pa pa ra pa pa pa
Ser BR não é mole, bê.
Ser BR não é mole, cê não sabe...
Tem que ter, tem que ler, tem que ver
Tem que ter jogo de cintura
E saber ler a conjuntura
Não fazer confusão:
Tem amigo que é brother
E amigo que é irmão
Tem que ver o que é cultura
Entender beleza pura
(k pra nós) Só dinheiro é que não...
Mas geralmente a gente
Ginga com a situação
Se tá na chuva é pra se molhar
E às vezes comer um bocado de agá
Mas no dia em que não gerar
Tira de letra, sai na egípcia
E joga um cipah
Pa pa ra pa pa pa
Como cê pensa - 12/04/2017
Sentia saudades de escrever chapada, de entrar num estado de intimidade consigo que lhe permitia a honestidade de certas ideias, palavras, sentimentos e carinhos mentais mais livres.
Como meu monólogo interno, eu sou assim. Quase que o tempo todo uma "voz" escrevendo umas história, com ideias, palavras, sensações, coceiras mentais que se debulham em sementes diversas. Uma história, várias histórias. Minha história. Minhas memórias, que são um registro limitado (e inconscientemente selecionado, como já se sabe).
Mas o cruel e (?) justo (?) registro do papel no momento de maior intimidade (quase pudica) com essa voz proporciona uma honestidade quase crítica, mas extremamente vulnerável também.
Entregar-se ao papel. Permitir que a alma transborde do corpo e mergulhe nele, deixando o rastro do seu sangue marinho como tinta que há de secar. É uma gentileza preciosa que me permito, de quando em vez... E quando a preguiça não consegue me dissuadir de ir pegar a caneta.
Vem intercalada por pausas para respirações profundas... Porque, sinceramente, respirar é bom pra caralho, não acha? Faço o tempo todo.
HÁ.
A honestidade do monólogo até me permite uma piada de tio do pavê.
É análogo a uma confissão religiosa, mas o padre é de madeira fatiada e não te absolve de porra nenhuma - só absorve. Há também o direito a longas paradas para olhar pregos nas paredes ou até encarar longamente borboletas. Talvez até depois de algum tempo que elas já tiverem ganhado os ares e fugido do campo de visão.
Existe uma certa fúria nisso, o que me pesa a mão. Deixa sequelas, incômodos e tensões que percorrem os nervos até se alojarem nos músculos do pescoço e do ombro. E é por isso que me alongo o tempo todo, como uma louca...
... Porque eu sou mesmo, mas não como se pensa. Não como cê pensa.
Como meu monólogo interno, eu sou assim. Quase que o tempo todo uma "voz" escrevendo umas história, com ideias, palavras, sensações, coceiras mentais que se debulham em sementes diversas. Uma história, várias histórias. Minha história. Minhas memórias, que são um registro limitado (e inconscientemente selecionado, como já se sabe).
Mas o cruel e (?) justo (?) registro do papel no momento de maior intimidade (quase pudica) com essa voz proporciona uma honestidade quase crítica, mas extremamente vulnerável também.
Entregar-se ao papel. Permitir que a alma transborde do corpo e mergulhe nele, deixando o rastro do seu sangue marinho como tinta que há de secar. É uma gentileza preciosa que me permito, de quando em vez... E quando a preguiça não consegue me dissuadir de ir pegar a caneta.
Vem intercalada por pausas para respirações profundas... Porque, sinceramente, respirar é bom pra caralho, não acha? Faço o tempo todo.
HÁ.
A honestidade do monólogo até me permite uma piada de tio do pavê.
É análogo a uma confissão religiosa, mas o padre é de madeira fatiada e não te absolve de porra nenhuma - só absorve. Há também o direito a longas paradas para olhar pregos nas paredes ou até encarar longamente borboletas. Talvez até depois de algum tempo que elas já tiverem ganhado os ares e fugido do campo de visão.
Existe uma certa fúria nisso, o que me pesa a mão. Deixa sequelas, incômodos e tensões que percorrem os nervos até se alojarem nos músculos do pescoço e do ombro. E é por isso que me alongo o tempo todo, como uma louca...
... Porque eu sou mesmo, mas não como se pensa. Não como cê pensa.
domingo, 18 de junho de 2017
IMPEACHMENT
A6
Botaram um monumento na praça
D7 E7
Disseram que era pra homenagear
A6 Gm
Ninguém sabe quem, ninguém sabe o quê
Gm6 C7/9 F7
Mas se fizer alarde os porco vão descer
Fm6 Bb7/9
Ninguém sabe o quê, ninguém sabe quem
Mas não lhe desacate, só lhe trate bem
e vai. de. mansinho
no passinho
no jeitinho brasileiro de levar
e vai. de a.miguinho
com jeitinho
sim senhor, pra carrocinha não levar
A6
Botaram um parlamento reaça
D7 E7
Disseram que era pra organizar
A6 Gm
Ninguém sabe quem, ninguém sabe o quê
Gm6 C7/9 F7
No planalto ou na bancada do BBB
Fm6 Bb7/9
Ninguém sabe o quê, ninguém sabe quem
E se quem souber morre, não fala ninguém
e vai. de. mansinho
no passinho
no jeitinho brasileiro de levar
e vai. de a.miguinho
rapidinho
no jatinho dando um raio até chegar
A6
Fizeram um movimento de massa
D7 E7
Disseram que era pra se indignar
A6 Gm
Ninguém sabe bem exato o por quê
Gm6 C7/9 F7
E nesse meio tempo deram um rolê
Fm6 Bb7/9
Quem paga pra ver não sabe o que vem
Em cadeira derrubada não senta ninguém
Botaram um monumento na praça
D7 E7
Disseram que era pra homenagear
A6 Gm
Ninguém sabe quem, ninguém sabe o quê
Gm6 C7/9 F7
Mas se fizer alarde os porco vão descer
Fm6 Bb7/9
Ninguém sabe o quê, ninguém sabe quem
Mas não lhe desacate, só lhe trate bem
e vai. de. mansinho
no passinho
no jeitinho brasileiro de levar
e vai. de a.miguinho
com jeitinho
sim senhor, pra carrocinha não levar
A6
Botaram um parlamento reaça
D7 E7
Disseram que era pra organizar
A6 Gm
Ninguém sabe quem, ninguém sabe o quê
Gm6 C7/9 F7
No planalto ou na bancada do BBB
Fm6 Bb7/9
Ninguém sabe o quê, ninguém sabe quem
E se quem souber morre, não fala ninguém
e vai. de. mansinho
no passinho
no jeitinho brasileiro de levar
e vai. de a.miguinho
rapidinho
no jatinho dando um raio até chegar
A6
Fizeram um movimento de massa
D7 E7
Disseram que era pra se indignar
A6 Gm
Ninguém sabe bem exato o por quê
Gm6 C7/9 F7
E nesse meio tempo deram um rolê
Fm6 Bb7/9
Quem paga pra ver não sabe o que vem
Em cadeira derrubada não senta ninguém
quarta-feira, 8 de março de 2017
Odile IV
Sabia que não deveria estar lá. E tinha sabido antes de mesmo pisar no rodapé da casa. Apesar de já ter recebido todos os avisos possíveis e belas confirmações do poder da sua intuição... Ainda assim ignorava.
Olhando em volta e recuperando os buracos onde tinha a chance de se meter - e o fizera - e imaginava a metragem a ser escalada para sair de todos eles. Mas se metera por mérito próprio e grandes vacilos vêm com grandes responsabilidades.
Suportava, apenas. Será que um belo dia chegava o momento da vida onde você se via falando sobre preços de lajotas e pisos de PVC? Comentando orçamentos de azuleijos, rejuntes e art decô? Na noite anterior se pegara imóvel, encarando a quina do teto do hotel como se no vértice daqueles 3 planos estivesse algum tipo de resposta.
Pra qual pergunta? Havia muitas não respondidas. Madeira ou fake? Quem sou eu? Tijolo ou pastilha? Eram os deuses astronautas? Quem dirige? Quem sou eu? Onde vamos almoçar? Muitas não eram respondidas, mas elas sempre brotariam a todo momento. Naquele mesmo instante se perguntava se o gosto da esposa do colega de trabalho de Leonardo para decoração seria tão intragável quanto seu gosto por estampas de blusa.
Repreendeu-se por esse pensamento maldoso. "Você está se tornando o tipo de pessoa que antes te dava tédio". Sabia do risco quando resolvera ir morar com ele naquele apartamento de gosto meio asséptico-cult-pop tirado a minimalista. Sabia que talvez seu sorriso ficasse tão esticado quando o couro do sofá da sala. Mas achara que seria um processo doloroso, árduo - suportado, apenas.
Muito ao contrário, havia sido como descer uma ladeira de declive suave, os pés arrastando-se como se usasse um preguiçoso chinelo para ir comprar pão num sábado de manhã. Mas não doera. Nem sequer fora difícil em qualquer momento; era o curso natural da inércia espaço-temporal. O mesmo fluxo que agora lhe movia as mãos, enxugava o molho no guardanapo, levava a taça aos lábios. Piscar, inspirar. Manter respiração. Tentar escutar o que ele está dizendo. Virar para olhar na direção dela quando traça um comentário. O sorriso solto, o olhar nublado.
Desde a noite anterior parecia que o grande catálogo de ferragens de banheiro que levava na bolsa havia enferrujado pelo tipo de má fé que tratora até aço inox. Não lhe brilhavam mais os olhos. Seu reflexo metálico já não lhe mostrava toalhas felpudas e sabonetes de verbena. Teria sido uma vida confortável. Teria sido um declive suave e indolor se aquela quina de teto não parecesse um impasse dentro de sua própria cabeça.
Olhara para o lado e se perguntara como poderia ele dormir tão tranquilo, sem dar-se conta de que percorriam itinerários que sempre passavam por aquele vértice, como se marcasse um limite máximo de onde aquela ladeira chegava. O resto era adiar o fim, adiar o ponto final. Alternar entre os planos, deslizar pelas arestas das 3 dimensões tangíveis enquanto brincava de desperdiçar a quarta. E ele ressonara tão tranquilo, sonhando com pequenos olhinhos e dobrinhas que esperava ter germinado na barriga que alisava, distraído e com alguma doçura.
Estremecera com esse pesamento. Olhara fundo no vértice e sentira que de alguma forma aquele ponto solitário lhe abrira um furo algum lugar dentro. Nunca esqueceria esse pensamento. Agora, algumas semanas depois, porém, se concentrava mais em lembrar da numeração da textura de cortina que usaria na sala. Era creme. Creme alguma coisa L35? Não, calma, isso era o Sofá.
A mulher riu. Sônia. O nome dela era Sônia.
- Esquece, você me manda depois. - disse ela, abanado o ar como se houvesse fumaça - Eu sigo uma pasta no pinterest, só com paletas de cores e texturas de tecidos e tinturas. Tenho até uma pasta especial de papeis de parede. Edições comemorativas de natal, estampas infantis pro quarto das crianças... - ela parou um segundo, aqui, lançando um olhar para seu marido e depois para Leonardo e depois para Odile - E para quando planejam o pequeno? - disse, comovida, quase guinchando em pequena euforia.
Leonardo sorriu, num desconforto quase fingido, quase cheio de contentamento. Olhou para ela e começou a responder, balbuciando.
- Sim... Sim... Estamos conversando sobre, desde que decidimos morar juntos. No projeto do apartamento com certeza está previsto um pequeno quarto que seria para o bebê, mas que pode servir a ela de escritório também. Estamos ainda esperando... - Gaguejou um pouco sem saber como tocar no tema da fecundação.
Odile empalideceu. Não sabia se queria ter contado nada disso àquele casal. O marido de Sônia, pareceu perceber o pudor de Leonardo - sem ter nem pálida percepção do desconforto de Odile - e completou, sugerindo:
- Esperando a cegonha, né? - soltou uma risada grave e meio safardana que deu a Odile vontade de cuspir a carne que colocara na boca. - Ah, nada como o período fértil do mês, hein? Tem que aproveitar para usar todas aquelas roupinhas de renda agora porque depois, meu querido... Ha! Não tem mais oba-oba, nem cinta-liga, nem noites de sono. E deu uma piscadinha. - Tô mentindo, Nona? Hahahahahaha. - Riu, dando uma cutucada na esposa, como quem invoca cumplicidade.
Sônia e Leonardo riram. Sem graça, Odile apenas sentiu enregelar o estômago, sem dizer palavra. Torcida, deu um gole do vinho. Depois de coçar a garganta, a mulher retomou seu monólogo:
- Bom... Tem uns papéis de parede divinos pra bebê. Coisa de primeira, parece quarto de príncipe. Digo, ou princesa... Mas te digo que tomara que seja um menino - disse, como que confidenciando um segredo politicamente incorreto - porque o azul é muito mais lindo que o rosa. Não que eu não goste do rosa. Mas o tom do azul tem algo... algo de realeza que simplesmente vale o preço do metro quadrado.
Odile não sabia se deveria dizer alguma coisa. Girava o garfo já enrolado de espaguete na colher, como se aquele barulho lhe arranhasse a garganta, que coçava com as coisas que ouvia. O orçamento obsceno dos papéis de parede lhe desciam com mais facilidade que o macarrão frio. Encostou os talheres na esquerda do prato, focou na quina do piso na parede da sua frente, por baixo do braço da Sônia, que começara a gesticular. Desfocou o pesamento como quem desfoca uma lente. Dormentou os próprios sentidos. Apenas acenava e meiamente sorria de lábios fechados.
Olhando em volta e recuperando os buracos onde tinha a chance de se meter - e o fizera - e imaginava a metragem a ser escalada para sair de todos eles. Mas se metera por mérito próprio e grandes vacilos vêm com grandes responsabilidades.
Suportava, apenas. Será que um belo dia chegava o momento da vida onde você se via falando sobre preços de lajotas e pisos de PVC? Comentando orçamentos de azuleijos, rejuntes e art decô? Na noite anterior se pegara imóvel, encarando a quina do teto do hotel como se no vértice daqueles 3 planos estivesse algum tipo de resposta.
Pra qual pergunta? Havia muitas não respondidas. Madeira ou fake? Quem sou eu? Tijolo ou pastilha? Eram os deuses astronautas? Quem dirige? Quem sou eu? Onde vamos almoçar? Muitas não eram respondidas, mas elas sempre brotariam a todo momento. Naquele mesmo instante se perguntava se o gosto da esposa do colega de trabalho de Leonardo para decoração seria tão intragável quanto seu gosto por estampas de blusa.
Repreendeu-se por esse pensamento maldoso. "Você está se tornando o tipo de pessoa que antes te dava tédio". Sabia do risco quando resolvera ir morar com ele naquele apartamento de gosto meio asséptico-cult-pop tirado a minimalista. Sabia que talvez seu sorriso ficasse tão esticado quando o couro do sofá da sala. Mas achara que seria um processo doloroso, árduo - suportado, apenas.
Muito ao contrário, havia sido como descer uma ladeira de declive suave, os pés arrastando-se como se usasse um preguiçoso chinelo para ir comprar pão num sábado de manhã. Mas não doera. Nem sequer fora difícil em qualquer momento; era o curso natural da inércia espaço-temporal. O mesmo fluxo que agora lhe movia as mãos, enxugava o molho no guardanapo, levava a taça aos lábios. Piscar, inspirar. Manter respiração. Tentar escutar o que ele está dizendo. Virar para olhar na direção dela quando traça um comentário. O sorriso solto, o olhar nublado.
Desde a noite anterior parecia que o grande catálogo de ferragens de banheiro que levava na bolsa havia enferrujado pelo tipo de má fé que tratora até aço inox. Não lhe brilhavam mais os olhos. Seu reflexo metálico já não lhe mostrava toalhas felpudas e sabonetes de verbena. Teria sido uma vida confortável. Teria sido um declive suave e indolor se aquela quina de teto não parecesse um impasse dentro de sua própria cabeça.
Olhara para o lado e se perguntara como poderia ele dormir tão tranquilo, sem dar-se conta de que percorriam itinerários que sempre passavam por aquele vértice, como se marcasse um limite máximo de onde aquela ladeira chegava. O resto era adiar o fim, adiar o ponto final. Alternar entre os planos, deslizar pelas arestas das 3 dimensões tangíveis enquanto brincava de desperdiçar a quarta. E ele ressonara tão tranquilo, sonhando com pequenos olhinhos e dobrinhas que esperava ter germinado na barriga que alisava, distraído e com alguma doçura.
Estremecera com esse pesamento. Olhara fundo no vértice e sentira que de alguma forma aquele ponto solitário lhe abrira um furo algum lugar dentro. Nunca esqueceria esse pensamento. Agora, algumas semanas depois, porém, se concentrava mais em lembrar da numeração da textura de cortina que usaria na sala. Era creme. Creme alguma coisa L35? Não, calma, isso era o Sofá.
A mulher riu. Sônia. O nome dela era Sônia.
- Esquece, você me manda depois. - disse ela, abanado o ar como se houvesse fumaça - Eu sigo uma pasta no pinterest, só com paletas de cores e texturas de tecidos e tinturas. Tenho até uma pasta especial de papeis de parede. Edições comemorativas de natal, estampas infantis pro quarto das crianças... - ela parou um segundo, aqui, lançando um olhar para seu marido e depois para Leonardo e depois para Odile - E para quando planejam o pequeno? - disse, comovida, quase guinchando em pequena euforia.
Leonardo sorriu, num desconforto quase fingido, quase cheio de contentamento. Olhou para ela e começou a responder, balbuciando.
- Sim... Sim... Estamos conversando sobre, desde que decidimos morar juntos. No projeto do apartamento com certeza está previsto um pequeno quarto que seria para o bebê, mas que pode servir a ela de escritório também. Estamos ainda esperando... - Gaguejou um pouco sem saber como tocar no tema da fecundação.
Odile empalideceu. Não sabia se queria ter contado nada disso àquele casal. O marido de Sônia, pareceu perceber o pudor de Leonardo - sem ter nem pálida percepção do desconforto de Odile - e completou, sugerindo:
- Esperando a cegonha, né? - soltou uma risada grave e meio safardana que deu a Odile vontade de cuspir a carne que colocara na boca. - Ah, nada como o período fértil do mês, hein? Tem que aproveitar para usar todas aquelas roupinhas de renda agora porque depois, meu querido... Ha! Não tem mais oba-oba, nem cinta-liga, nem noites de sono. E deu uma piscadinha. - Tô mentindo, Nona? Hahahahahaha. - Riu, dando uma cutucada na esposa, como quem invoca cumplicidade.
Sônia e Leonardo riram. Sem graça, Odile apenas sentiu enregelar o estômago, sem dizer palavra. Torcida, deu um gole do vinho. Depois de coçar a garganta, a mulher retomou seu monólogo:
- Bom... Tem uns papéis de parede divinos pra bebê. Coisa de primeira, parece quarto de príncipe. Digo, ou princesa... Mas te digo que tomara que seja um menino - disse, como que confidenciando um segredo politicamente incorreto - porque o azul é muito mais lindo que o rosa. Não que eu não goste do rosa. Mas o tom do azul tem algo... algo de realeza que simplesmente vale o preço do metro quadrado.
Odile não sabia se deveria dizer alguma coisa. Girava o garfo já enrolado de espaguete na colher, como se aquele barulho lhe arranhasse a garganta, que coçava com as coisas que ouvia. O orçamento obsceno dos papéis de parede lhe desciam com mais facilidade que o macarrão frio. Encostou os talheres na esquerda do prato, focou na quina do piso na parede da sua frente, por baixo do braço da Sônia, que começara a gesticular. Desfocou o pesamento como quem desfoca uma lente. Dormentou os próprios sentidos. Apenas acenava e meiamente sorria de lábios fechados.
domingo, 5 de março de 2017
Peso Líquido
Não me entregue seus problemas
Eu já tenho os meus
E tenho tentado reduzir
Seu peso líquido
No rio da minha vida
Não me invente compromissos
Eu já tenho demais
E tenho tentado reduzir
Sua frequência
Nos meus planos semanais
E eu sei
Que tá cheio de extremista
E de igreja batista
Que tá caro o analista
E que eu não colo mais na pista
Eu sei, eu sei
Que os rolê tão bem machista
E todo dia é uma conquista
E não aparece na revista
Que o governo é golpista
Isso tudo tá provado
Mas também tem outro lado
Um pouco mais iluminado
E hoje eu quero andar por lá
Por esses e outros...
Não me aponte esse pecados
Eu já me culpo demais
E tenho tentado aliviar
As penitências
Por meus erros mais banais
Não me venha com verdades
Eu não acredito nesse deus
E tenho evitado caminhar
Com os muito santos
E também com os muito ateus
Eu já tenho os meus
E tenho tentado reduzir
Seu peso líquido
No rio da minha vida
Não me invente compromissos
Eu já tenho demais
E tenho tentado reduzir
Sua frequência
Nos meus planos semanais
E eu sei
Que tá cheio de extremista
E de igreja batista
Que tá caro o analista
E que eu não colo mais na pista
Eu sei, eu sei
Que os rolê tão bem machista
E todo dia é uma conquista
E não aparece na revista
Que o governo é golpista
Isso tudo tá provado
Mas também tem outro lado
Um pouco mais iluminado
E hoje eu quero andar por lá
Por esses e outros...
Não me aponte esse pecados
Eu já me culpo demais
E tenho tentado aliviar
As penitências
Por meus erros mais banais
Não me venha com verdades
Eu não acredito nesse deus
E tenho evitado caminhar
Com os muito santos
E também com os muito ateus
sexta-feira, 3 de março de 2017
Cego Sol
Escrever sempre foi meu atestado de covardia
Muita dor, mas pouco esforço...
Aprendendo a viver por alguma poesia
O típíco leão
Que não encontra coragem
Só desejo rançoso
No próprio coração
Escrever sempre foi meu escape de todo dia
Muito de mim, mas só no esboço
Aprendendo a mostrar sem dar cara a tapa
O típico leão
Que se esconde na juba
Para gritar um rugido
Sem mostrar os dentes
Escrever sempre foi minha forma de melancolia
Muito encontrada no fundo do poço
Aprendendo a escalar sem desejo de subir
O típico leão
Que se prende na jaula
Que se sente protegido
Na própria ilusão
Escrever sempre foi em mim, também, melodia
Muito contida, acumulada em caroço
Aprendendo a vazar sem ter que explodir
O típico leão
Que disfarça o seu medo
Com raiva, vaidade...
Guarda o eu em segredo
Mas acordei um dia antes do dia
Úmido, fresco, antes do sol aparecer
E descobri que talvez em mim existam também...
Mesmo que fracas, mesmo que murchas
Mesmo que brotos, mesmo que feias
Pensei que em talvez em mim possam crescer
Porque antes de ver o sol, vi flores em você
Muita dor, mas pouco esforço...
Aprendendo a viver por alguma poesia
O típíco leão
Que não encontra coragem
Só desejo rançoso
No próprio coração
Escrever sempre foi meu escape de todo dia
Muito de mim, mas só no esboço
Aprendendo a mostrar sem dar cara a tapa
O típico leão
Que se esconde na juba
Para gritar um rugido
Sem mostrar os dentes
Escrever sempre foi minha forma de melancolia
Muito encontrada no fundo do poço
Aprendendo a escalar sem desejo de subir
O típico leão
Que se prende na jaula
Que se sente protegido
Na própria ilusão
Escrever sempre foi em mim, também, melodia
Muito contida, acumulada em caroço
Aprendendo a vazar sem ter que explodir
O típico leão
Que disfarça o seu medo
![]() |
| Jean Michel Bihorel - Flower Figures 002 |
Guarda o eu em segredo
Mas acordei um dia antes do dia
Úmido, fresco, antes do sol aparecer
E descobri que talvez em mim existam também...
Mesmo que fracas, mesmo que murchas
Mesmo que brotos, mesmo que feias
Pensei que em talvez em mim possam crescer
Porque antes de ver o sol, vi flores em você
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Delírio de Febre II - 14.02.2017
A arte existe para que me olhes nos olhos, trás uma cortina de lágrimas, e me digas que me amas e que sou a coisa mais importante do (teu) mundo.
Mesmo que não seja verdade.
Mas cada lágrima é mais verdadeira que A Verdade.
Mesmo que não seja.
E isso é arte.
A arte existe para que os pequenos pássaros de papo amarelo que assentaram ninho nos fios de eletricidade me sejam mais audíveis que os motores exalando fumaça.
Ou mais belos.
Mesmo que não seja verdade.
Mesmo que a saturação já não me permita ver os sons.
Mesmo que já não haja pássaros nessa cidade.
Só saudade.
A arte existe para que cate os retalhos de um coração rasgado e cole-os todos num papel rascunho por ali jogado.
E que os pedaços grudados em forma de árvore rasguem em seu rosto sorrisos maiores que as fendas do antigo coração.
Ou talvez mais serenos.
Ao menos antes que seja tarde.
E isso é arte.
E se na pior adversidade teu deus te dá forças, isso também é arte.
Por isso, então, deus lhe pague.
E mesmo que não...
"A arte existe para que a vida não nos esmague."
Mesmo que não seja verdade.
Mas cada lágrima é mais verdadeira que A Verdade.
Mesmo que não seja.
E isso é arte.
A arte existe para que os pequenos pássaros de papo amarelo que assentaram ninho nos fios de eletricidade me sejam mais audíveis que os motores exalando fumaça.
Ou mais belos.
Mesmo que não seja verdade.
Mesmo que a saturação já não me permita ver os sons.
Mesmo que já não haja pássaros nessa cidade.
Só saudade.
A arte existe para que cate os retalhos de um coração rasgado e cole-os todos num papel rascunho por ali jogado.
E que os pedaços grudados em forma de árvore rasguem em seu rosto sorrisos maiores que as fendas do antigo coração.
Ou talvez mais serenos.
Ao menos antes que seja tarde.
E isso é arte.
E se na pior adversidade teu deus te dá forças, isso também é arte.
Por isso, então, deus lhe pague.
E mesmo que não...
"A arte existe para que a vida não nos esmague."
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
O Riso dos Outros
Eu não vejo graça
Quando vem com esse papo
Que é parça, muito meu amigo
Vem logo falando que é desconstruído
E assina embaixo do senso comum
E se eu não vejo graça
Quando cospe um ditado
De praça, muitíssimo antigo
Reclama que agora tudo é proibido
Que se for assim não vai se salvar um
Mas se eu quero fazer a cabeça
Teu papo é reto
Faz fita de cidadão de bem
Discurso politicamente correto
De que ninguém é melhor do que ninguém
Aí eu dou risada
Mas eu não vejo graça
Aí eu dou risada
Mas eu não vejo graça
Se eu sou exagerada
Você é reaça
Quando vem com esse papo
Que é parça, muito meu amigo
Vem logo falando que é desconstruído
E assina embaixo do senso comum
E se eu não vejo graça
Quando cospe um ditado
De praça, muitíssimo antigo
Reclama que agora tudo é proibido
Que se for assim não vai se salvar um
Mas se eu quero fazer a cabeça
Teu papo é reto
Faz fita de cidadão de bem
Discurso politicamente correto
De que ninguém é melhor do que ninguém
Aí eu dou risada
Mas eu não vejo graça
Aí eu dou risada
Mas eu não vejo graça
Se eu sou exagerada
Você é reaça
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Ofélia
Alguém puxou a cordinha do ônibus, fazendo apitar o sinal de parada. Ofélia desencostou a cabeça do vidro da janela num sobressalto. O som ecoou por sua cabeça como eco de igreja. Seus olhos, subitamente cegos pela luz, capturaram tontos a paisagem urbana que passava em alta velocidade do lado de fora, fazendo com que sua mente girasse. Ou seria seu corpo que se movia com rapidez pelo espaço?
"Não devia ter fumado." pensou ela. "Você já está velha demais pra essas coisas", disse consigo, rindo baixinho ao pensar que era exatamente o que a sua mãe lhe diria se a visse naquele momento. Olhou o próprio reflexo pálido no retrovisor interno do motorista: o vermelho brilhante dos olhos era a única coisa que lhe denunciava a entorpecência, contrastando com a seriedade das rugas e dos cabelos brancos.
O ônibus sacudia e estalava, guinando irresponsavelmente pelas ruas estreitas de um bairro feio e crú. Ela não se preocupava. Fechou os olhos por uns segundos e sentiu o tipo de relaxamento que experimentava na tenra infância, quando o pai dirigia em alta velocidade pela estrada e ela apenas dormitava, no balanço de uma confiança cega e absoluta. Que ele a levasse. Até outro mundo, que fosse. Esticar o pescoço e enervar-se no intuito de prever um acidente não lhe protegeria de nada. Nada protegeria.
Divertia-se com pensamentos tolos e com os guinchos da estrutura metálica que balançava sobre as rodas de borracha. Ela também era enferrujada e velha. Reconhecia cada dor do seu corpo, amava cada ranger de suas articulações. Reconhecia-os, conhecia-os de longa data. Lhe pertenciam na mesma medida em que eram - de fato - ela. Percebeu a doçura de um autoconhecimento que era quase afeto por suas falhas partes. Quase não. De fato.
Era como viver por demasiado tempo em um lugar e acabar fazendo parte dele. Por exemplo: numa determinada manhã de novembro, quando subia a rua de cima da sua casa, os cachorros não latiram com a sua passagem. Não percebeu de imediato; passava escutando o trânsito longe, uma TV em algum andar baixo dos prédios - talvez uma portaria -, as folhas e flores dos ipês brilhando de vida. Mas sentia o vácuo de alguma coisa em sua paisagem (já se apropriara por uso capião). Dava-se conta de que não havia latidos.
Do outro lado da cerca de ferro os cães descansavam apoiando a cabeça nas patas cruzadas. Seus narizes absolutamente entediados - ou plenos - ela não sabia. Uma parte dela ficou quase desapontada, estranhando a falta de alarde pueril que normalmente se fazia com a sua passagem (ou a de qualquer pedestre próximo o suficiente). Seu cheiro talvez já se misturasse ao das amêndoas apodrecendo no chão, às descargas de carros velhos da vizinhança, merda e ao perfume de feijão fazendo caldo nas panelas de pressão. O cheiro do tédio - ou da plenitude - ela não sabia.
Seria essa a explicação para a insensibilidade do motorista ao passar implacável pelas mesmas passagens que ela admirava e notava com atenção? Seria esse o motivo da falta de tesão em um relacionamento de longas datas? Desejou ver tudo sempre com olhos virgens, e que assim fosse possível emocionar-se com cada uma das quartas-feiras que multiplicavam-se desmedidamente pelos calendários.
O ônibus sacolejou forte e atirou esses pensamentos pela janela. Eles agora passavam por um viaduto com nome de político. O entorno estava mudado: em lugar das construções de tijolo nú e ruelas de asfalto com terra batida ela agora via canteiros gramados, sinaleiras novas e prédios comerciais. Passaram por um museu. Ela riu consigo. Quando criança se perguntava por quê os velhos gostavam tanto de museus. Agora, décadas depois, achava graça no pensamento de que talvez fosse reconfortante para eles (ela - sim, agora ela também) admirar coisas mais antigas que si, como se as velhas obras de arte lhes dessem a tranquilidade da casa de uma avó.
O apito de parada do ônibus soou de novo, ecoando pela sua cabeça em fantástico reverb. Talvez por conta da passagem do museu, começou a pensar na arte como conceito. Pensou que a música era espaço derramado no tempo e que a dança era movimento no espaço. A pintura era uma ideia, apenas, representada no espaço e que as fotografias eram espaço congelado em fatias de tempo. O cinema... O cinema era a ilusão do movimento dessas fatias de momento (ilusoriamente registrados, ilusoriamente, apenas).
E a literatura...? Sua mente então, calou-se. Em sua lógica de tempo e espaço, a literatura era nada. Só ilusão. E ainda assim se fazia mais real que tantas outras, às vezes. Muito mais real do que a sensação minúscula de sentir o relevo da tinta sobre o papel. Mas a literatura era só ilusão.
Irritou-se consigo.
"Ora, que merda você está pensando, velha? Parece um desses teóricos de gravata borboleta que passam seus dias desperdiçando os dos jovens."
Mas não... Ao mesmo tempo ela sabia que talvez aquele pensamento fosse o mais valioso que já tivera na última década. Ao mesmo tempo ela sentiu-se roçar de leve com os dedos o tecido brando da Verdade, ou seja lá como se chamasse aquilo. Pensou que para saber o que é arte era necessário, antes de tudo, respirar fundo qualquer ar que fosse e sentir o gosto das partículas nos pulmões. Pensou que para saber o que é arte era necessário antes de tudo permitir-se chorar com propagandas ruins de concessionárias ou sabonetes de baunilha.
Sua parada era a próxima. Puxou a cordinha e sentiu o irritante som debatendo-se por seu labirinto como um ouriço bêbado. Era prazeroso, apesar de tudo. Desceu do ônibus acreditando com todas as forças que a arte era espaço e movimento, tempo e ilusão.
"Não devia ter fumado." pensou ela. "Você já está velha demais pra essas coisas", disse consigo, rindo baixinho ao pensar que era exatamente o que a sua mãe lhe diria se a visse naquele momento. Olhou o próprio reflexo pálido no retrovisor interno do motorista: o vermelho brilhante dos olhos era a única coisa que lhe denunciava a entorpecência, contrastando com a seriedade das rugas e dos cabelos brancos.
O ônibus sacudia e estalava, guinando irresponsavelmente pelas ruas estreitas de um bairro feio e crú. Ela não se preocupava. Fechou os olhos por uns segundos e sentiu o tipo de relaxamento que experimentava na tenra infância, quando o pai dirigia em alta velocidade pela estrada e ela apenas dormitava, no balanço de uma confiança cega e absoluta. Que ele a levasse. Até outro mundo, que fosse. Esticar o pescoço e enervar-se no intuito de prever um acidente não lhe protegeria de nada. Nada protegeria.
Divertia-se com pensamentos tolos e com os guinchos da estrutura metálica que balançava sobre as rodas de borracha. Ela também era enferrujada e velha. Reconhecia cada dor do seu corpo, amava cada ranger de suas articulações. Reconhecia-os, conhecia-os de longa data. Lhe pertenciam na mesma medida em que eram - de fato - ela. Percebeu a doçura de um autoconhecimento que era quase afeto por suas falhas partes. Quase não. De fato.
Era como viver por demasiado tempo em um lugar e acabar fazendo parte dele. Por exemplo: numa determinada manhã de novembro, quando subia a rua de cima da sua casa, os cachorros não latiram com a sua passagem. Não percebeu de imediato; passava escutando o trânsito longe, uma TV em algum andar baixo dos prédios - talvez uma portaria -, as folhas e flores dos ipês brilhando de vida. Mas sentia o vácuo de alguma coisa em sua paisagem (já se apropriara por uso capião). Dava-se conta de que não havia latidos.
Do outro lado da cerca de ferro os cães descansavam apoiando a cabeça nas patas cruzadas. Seus narizes absolutamente entediados - ou plenos - ela não sabia. Uma parte dela ficou quase desapontada, estranhando a falta de alarde pueril que normalmente se fazia com a sua passagem (ou a de qualquer pedestre próximo o suficiente). Seu cheiro talvez já se misturasse ao das amêndoas apodrecendo no chão, às descargas de carros velhos da vizinhança, merda e ao perfume de feijão fazendo caldo nas panelas de pressão. O cheiro do tédio - ou da plenitude - ela não sabia.
Seria essa a explicação para a insensibilidade do motorista ao passar implacável pelas mesmas passagens que ela admirava e notava com atenção? Seria esse o motivo da falta de tesão em um relacionamento de longas datas? Desejou ver tudo sempre com olhos virgens, e que assim fosse possível emocionar-se com cada uma das quartas-feiras que multiplicavam-se desmedidamente pelos calendários.
O ônibus sacolejou forte e atirou esses pensamentos pela janela. Eles agora passavam por um viaduto com nome de político. O entorno estava mudado: em lugar das construções de tijolo nú e ruelas de asfalto com terra batida ela agora via canteiros gramados, sinaleiras novas e prédios comerciais. Passaram por um museu. Ela riu consigo. Quando criança se perguntava por quê os velhos gostavam tanto de museus. Agora, décadas depois, achava graça no pensamento de que talvez fosse reconfortante para eles (ela - sim, agora ela também) admirar coisas mais antigas que si, como se as velhas obras de arte lhes dessem a tranquilidade da casa de uma avó.
O apito de parada do ônibus soou de novo, ecoando pela sua cabeça em fantástico reverb. Talvez por conta da passagem do museu, começou a pensar na arte como conceito. Pensou que a música era espaço derramado no tempo e que a dança era movimento no espaço. A pintura era uma ideia, apenas, representada no espaço e que as fotografias eram espaço congelado em fatias de tempo. O cinema... O cinema era a ilusão do movimento dessas fatias de momento (ilusoriamente registrados, ilusoriamente, apenas).
E a literatura...? Sua mente então, calou-se. Em sua lógica de tempo e espaço, a literatura era nada. Só ilusão. E ainda assim se fazia mais real que tantas outras, às vezes. Muito mais real do que a sensação minúscula de sentir o relevo da tinta sobre o papel. Mas a literatura era só ilusão.
Irritou-se consigo.
"Ora, que merda você está pensando, velha? Parece um desses teóricos de gravata borboleta que passam seus dias desperdiçando os dos jovens."
Mas não... Ao mesmo tempo ela sabia que talvez aquele pensamento fosse o mais valioso que já tivera na última década. Ao mesmo tempo ela sentiu-se roçar de leve com os dedos o tecido brando da Verdade, ou seja lá como se chamasse aquilo. Pensou que para saber o que é arte era necessário, antes de tudo, respirar fundo qualquer ar que fosse e sentir o gosto das partículas nos pulmões. Pensou que para saber o que é arte era necessário antes de tudo permitir-se chorar com propagandas ruins de concessionárias ou sabonetes de baunilha.
Sua parada era a próxima. Puxou a cordinha e sentiu o irritante som debatendo-se por seu labirinto como um ouriço bêbado. Era prazeroso, apesar de tudo. Desceu do ônibus acreditando com todas as forças que a arte era espaço e movimento, tempo e ilusão.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
A Zadicêra - 01/12/2017
Não sei, dessa vez, quem viu quem primeiro o outro naquela confusão de automóveis hostis. Mas é certo que ali mesmo comecei a sorrir. Nessa boca aqui, meio seca e contorcida pela tosse, que vinha mais soltando despretensiosidades e - muito - calando. Pois a boca deu pra sorrir.
Seria o sorriso o orgasmo da boca? Ou seria este o grito e o primeiro o frenesi que o antecede? Se for assim, quem me convence a largar sua boca, quem me segura, quem me protege de mim?
Se é questão de mistério, não sei bem, mas sou pessoa complicada. Complexa, talvez. Nada símples pra tentar decifrar. Mas sou clara e o que tenho está a mostra, gritado aos quatro ventos tudo o que posso dar. Só quem é clarividente pode ver.
Não sei, na primeira vez, quem viu primeiro quem. Mas achei que você nunca ia me olhar do jeito que eu te olhava olho. Antes não me atrevia... Que ozada eu sou, até... Doida varrida, talvez. Mas você não sabe da missa um terço. E se tudo é uma questão de preço, esse é o de me ver de perto e saber da piscina, da carolina, da gasolina y otras cositas más.
Independente se é justo o se mereço, ajoelhou, tem que rezar . E não boto nem fé, não sei. Mas queria mesmo acreditar. Talvez... Preencher mais uma vez, com sangue novo, os tubos ermos do perecível músculo que bombeia meu peito.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Odile III
"Depois de um tempo - disse a senhora a ela - "você vai acabar percebendo que a vida é longa o suficiente pra que muita merda aconteça. Essa é a verdade. O tempo... Ele não cura nenhuma ferida, mas ele te permite ferir-se tantas vezes que as feridas vão se tornando ordinárias."
Odile não soube bem como reagir àquela declaração. Todas as vozes e pessoas lhe pareciam borradas, mas aquela figura subitamente se fez nítida - e embaraçosa, em algum nível.
"Sei que agora vai parecer insensível da minha parte, mas tampouco tenha pressa pra entender conselhos de pessoas mais velhas. Viva sua dor e seu momento. O tempo também não tem pressa de ensinar nada a ninguém."
A senhora lhe tocou o ombro com um semblante de pesar comedido, porém honesto - ainda que de forma estranha. Odile teve a sensação de que a compaixão da mulher não fora gerada por aquela infelicidade específica, mas por uma infinidade de segundos que se seguiriam até o fim da sua vida durante os quais teria que conviver com suas mágoas.
Para todos os lados que olhava, Odile via a dor e cada parte do seu corpo parecia ter uma fina agulha enfiada em toda a cobertura de pele. A dor era um terremoto que brotava no âmago, do colo do seu morto útero em luto. Parecia carcomer seus nervos como ferrugem aos cabos de eletricidade, entupindo-lhe de varizes informacionais. Onde estaria? Não se lembrava de ter chegado àquele supermercado fluorescentemente iluminado e segmentado em extensas estantes e corredores de produtos.
Sem mais palavras, a anciã seguiu em direção ao caixa preferencial e deixou Odile - ainda meio estarrecida - sozinha na fila de compras rápidas. Olhou para o conteúdo da própria cesta: um saquinho de sequilhos, café, cigarro, 3 pacotes de macarrão instantâneo e um frasco de pepinos em conserva: do mexicano, não do suave.
"A dieta de uma campeã" pensou, rindo da própria ironia. Assombrou-se: já nem lembrava mais do que era o riso, o deboche. Uma parte dela se sentiu ultrajada, como se aquele humor tirasse a importância do seu luto. E de alguma forma tirava mesmo, mas sentiu o fenômeno muito mais como um descarrego, um alívio do peso, do que como uma ofensa à sua própria dor.
Sozinha, consigo, Odile riu de si mesma a fila do supermercado. Os olhares confusos dos outros clientes apenas tornando tudo ainda mais cômico, Pagou as compras contendo-se para não rir diante da atendente do caixa. Não sabia quem tinha colocado dinheiro na sua conta... Talvez o pai, talvez o próprio Leonardo. Sim, devia ter sido um deles. Não lembrava da última vez que havia sequer trabalhado. Agradeceu à atendente e recolheu os sacos plásticos, colocando-os dentro do carrinho de compras de arrastar.
"Sou como uma velhinha" pensou, olhando de relance para a senhora que lhe falara na fia do caixa. "Arrastando esse troço, usando esse vestido quase que saído do armário de uma viúva amargurada... Que no fundo é o que sou."
Desviou o olhar antes que a idosa o percebesse e dirigiu-se à saída, arrastando o carrinho atrás de si. Cruzou a rua vazia na faixa de pedestres e desceu o declive da sua rua até bater os pés na soleira da porta. Digitou a senha a fechadura eletrônica - sem pensar - e abriu a porta de madeira escura. Ao entrar, notou que uma grande quantidade de envelopes brancos se acumulavam num montinho ao lado do tapete. Abaixou-se, agarrando-as nas mãos e arrastou o carrinho até a cozinha, vagamente olhando os remetentes dos envelopes.
Um flor murchava num vaso cheio de água velha e amarelada, no centro da mesa da cozinha. Um bilhete jazia sob seu peso. Odile pôs os envelopes junto ao bilhete e pôs-se a guardar as compras no armário, coisa que não levou muito tempo, devido à quantidade de itens adquiridos, mas que lhe permitiu perceber uma grossa camada de poeira as prateleiras. Seu nariz coçou e ela reprimiu um espirro.
Pegou a flor, parando um segundo para lembrar de alguma coisa. Franziu o cenho. Agarrou o vaso e jogou a água suja na pia e a flor murcha no lixo. "Já estava morta quando me deram" pensou, o remorso apenas passando longínquo e dissipando-se junto com o cheiro doce de decomposição.
Odile não soube bem como reagir àquela declaração. Todas as vozes e pessoas lhe pareciam borradas, mas aquela figura subitamente se fez nítida - e embaraçosa, em algum nível.
"Sei que agora vai parecer insensível da minha parte, mas tampouco tenha pressa pra entender conselhos de pessoas mais velhas. Viva sua dor e seu momento. O tempo também não tem pressa de ensinar nada a ninguém."
A senhora lhe tocou o ombro com um semblante de pesar comedido, porém honesto - ainda que de forma estranha. Odile teve a sensação de que a compaixão da mulher não fora gerada por aquela infelicidade específica, mas por uma infinidade de segundos que se seguiriam até o fim da sua vida durante os quais teria que conviver com suas mágoas.
Para todos os lados que olhava, Odile via a dor e cada parte do seu corpo parecia ter uma fina agulha enfiada em toda a cobertura de pele. A dor era um terremoto que brotava no âmago, do colo do seu morto útero em luto. Parecia carcomer seus nervos como ferrugem aos cabos de eletricidade, entupindo-lhe de varizes informacionais. Onde estaria? Não se lembrava de ter chegado àquele supermercado fluorescentemente iluminado e segmentado em extensas estantes e corredores de produtos.
Sem mais palavras, a anciã seguiu em direção ao caixa preferencial e deixou Odile - ainda meio estarrecida - sozinha na fila de compras rápidas. Olhou para o conteúdo da própria cesta: um saquinho de sequilhos, café, cigarro, 3 pacotes de macarrão instantâneo e um frasco de pepinos em conserva: do mexicano, não do suave.
"A dieta de uma campeã" pensou, rindo da própria ironia. Assombrou-se: já nem lembrava mais do que era o riso, o deboche. Uma parte dela se sentiu ultrajada, como se aquele humor tirasse a importância do seu luto. E de alguma forma tirava mesmo, mas sentiu o fenômeno muito mais como um descarrego, um alívio do peso, do que como uma ofensa à sua própria dor.
Sozinha, consigo, Odile riu de si mesma a fila do supermercado. Os olhares confusos dos outros clientes apenas tornando tudo ainda mais cômico, Pagou as compras contendo-se para não rir diante da atendente do caixa. Não sabia quem tinha colocado dinheiro na sua conta... Talvez o pai, talvez o próprio Leonardo. Sim, devia ter sido um deles. Não lembrava da última vez que havia sequer trabalhado. Agradeceu à atendente e recolheu os sacos plásticos, colocando-os dentro do carrinho de compras de arrastar.
"Sou como uma velhinha" pensou, olhando de relance para a senhora que lhe falara na fia do caixa. "Arrastando esse troço, usando esse vestido quase que saído do armário de uma viúva amargurada... Que no fundo é o que sou."
Desviou o olhar antes que a idosa o percebesse e dirigiu-se à saída, arrastando o carrinho atrás de si. Cruzou a rua vazia na faixa de pedestres e desceu o declive da sua rua até bater os pés na soleira da porta. Digitou a senha a fechadura eletrônica - sem pensar - e abriu a porta de madeira escura. Ao entrar, notou que uma grande quantidade de envelopes brancos se acumulavam num montinho ao lado do tapete. Abaixou-se, agarrando-as nas mãos e arrastou o carrinho até a cozinha, vagamente olhando os remetentes dos envelopes.
Um flor murchava num vaso cheio de água velha e amarelada, no centro da mesa da cozinha. Um bilhete jazia sob seu peso. Odile pôs os envelopes junto ao bilhete e pôs-se a guardar as compras no armário, coisa que não levou muito tempo, devido à quantidade de itens adquiridos, mas que lhe permitiu perceber uma grossa camada de poeira as prateleiras. Seu nariz coçou e ela reprimiu um espirro.
Pegou a flor, parando um segundo para lembrar de alguma coisa. Franziu o cenho. Agarrou o vaso e jogou a água suja na pia e a flor murcha no lixo. "Já estava morta quando me deram" pensou, o remorso apenas passando longínquo e dissipando-se junto com o cheiro doce de decomposição.
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
42276**
Se saia da minha cabeça, namoral
Eu sempre que te encontro
Vou pra outro plano astral
Ariano
E me pego imaginando
O teu corpo chei' de sal
Como gata, te limpando
Areiando
A minha língua já salgada
E enroscar meu pé no teu
Até de madrugada
Suspirando
Na tua mão tão calejada
E uma hora dessas
Inclusive já cansada
Me encarando
Com esses olhos de caboclo perigoso
Me alisando com o olhar
Diz que quer ser meu amigo
Se essa porra não vingar
Mas é também divino maravilhoso
E me arriscando em alto mar
Me jogo no mundo contigo
Se essa porra não virar
Eu sempre que te encontro
Vou pra outro plano astral
Ariano
E me pego imaginando
O teu corpo chei' de sal
Como gata, te limpando
Areiando
A minha língua já salgada
E enroscar meu pé no teu
Até de madrugada
Suspirando
Na tua mão tão calejada
E uma hora dessas
Inclusive já cansada
Me encarando
Com esses olhos de caboclo perigoso
Me alisando com o olhar
Diz que quer ser meu amigo
Se essa porra não vingar
Mas é também divino maravilhoso
E me arriscando em alto mar
Me jogo no mundo contigo
Se essa porra não virar
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
22.10.16 - ...va...ou...ria
Tua presença me enoza a garganta
E se te aproximas
Sinto latejar as veias
Teu olhar já me tira a roupa
Tua música me fecha os olhos
Teu silêncio me deita na cama
Tua respiração me adormece
Teu cheiro me desperta
Teu gozo me ilumina...
... va
... ou
... ria.
E se te aproximas
Sinto latejar as veias
Teu olhar já me tira a roupa
Tua música me fecha os olhos
Teu silêncio me deita na cama
Tua respiração me adormece
Teu cheiro me desperta
Teu gozo me ilumina...
... va
... ou
... ria.
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
"Resposta a Carta de Amor" ou "Um Dia Ainda Te Direi Adeus"
Fora de mim
Te atiraria do alto de um prédio, se pudesse
Meu pulso pulsa sob várias camadas de injúria
Pulmões revoltados paralisam mais de mil alvéolos em contração
Minha rejeição por ti é física
O estômago entra em espasmo vomitílio
Ao enxergar teus rastros e teu caminho pútrido
Bota pra fora
Fizeste dela a caveira
E em sua cabeça puseste chifres de demônia
E a deixaste carregar sozinha
A cruz que ajudaste a talhar
Cafajeste
Fora que é também fantoche oblivioso
Tolo...
Exorcizo-te de meu berço esplêndido
Expurgo tua raça como praga
Fora do meu alcance
Mas não por isso te vou a perdoar por um segundo
Ou mesmo acomodar-me baixo tua asa pútrida
Nem se fosse exílio
Nem se
FORA
E ainda que o poder do veneno letárgico que espalhas me deixe impotente
Fora de mim
Ou disso crente
Um dia ainda te direi adeus
Mas
Hoje e sempre,
FORA, TEMER.
Te atiraria do alto de um prédio, se pudesse
Meu pulso pulsa sob várias camadas de injúria
Pulmões revoltados paralisam mais de mil alvéolos em contração
Minha rejeição por ti é física
O estômago entra em espasmo vomitílio
Ao enxergar teus rastros e teu caminho pútrido
Bota pra fora
Fizeste dela a caveira
E em sua cabeça puseste chifres de demônia
E a deixaste carregar sozinha
A cruz que ajudaste a talhar
Cafajeste
Fora que é também fantoche oblivioso
Tolo...
Exorcizo-te de meu berço esplêndido
Expurgo tua raça como praga
Fora do meu alcance
Mas não por isso te vou a perdoar por um segundo
Ou mesmo acomodar-me baixo tua asa pútrida
Nem se fosse exílio
Nem se
Fora de mim
Ou disso crente
Um dia ainda te direi adeus
Mas
Hoje e sempre,
FORA, TEMER.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Antílopes
O mundo todo parece cheirar a malte e desejo apenas que fora o teu perfume a impregnar-me a carne. Um brilho verde-azulado, desses de pedra de bruxa que me faz sentir pequenos peixes de cor translúcida me fazendo cócegas nos pés, prendendo fogo em meus poros. Os peixes turvam a água. Talvez eu esteja alucinando.
Olhos repuxados me encaram. Olhos que preferem a escuridão à distância fria, que preferem o silêncio às futilidades, às vezes, em noites dessas de duas-da-manhã. E isso não sei, ainda, se por ocasião de êxtase ou por arrepio inconsciente causado por minha presença.
Mas se pudesse voltava no tempo, não tirava a segunda rolha. É uma lembrança tão infame, torturante. A sensação dos músculos travados, secos, do sono de desespero que me acomete quando daquilo pretendo tratar. E tudo ao reverso: ao invés de perfeito tenho (tremendo) o perverso devaneio e consequente fracasso disperso.
Mas não por desinteresse, jamais. Se pudesse eu (acreditar), cruzava a mesa num salto, porque também eu sei caçar e, juro, não só antílopes.
Olhos repuxados me encaram. Olhos que preferem a escuridão à distância fria, que preferem o silêncio às futilidades, às vezes, em noites dessas de duas-da-manhã. E isso não sei, ainda, se por ocasião de êxtase ou por arrepio inconsciente causado por minha presença.
Mas se pudesse voltava no tempo, não tirava a segunda rolha. É uma lembrança tão infame, torturante. A sensação dos músculos travados, secos, do sono de desespero que me acomete quando daquilo pretendo tratar. E tudo ao reverso: ao invés de perfeito tenho (tremendo) o perverso devaneio e consequente fracasso disperso.
Mas não por desinteresse, jamais. Se pudesse eu (acreditar), cruzava a mesa num salto, porque também eu sei caçar e, juro, não só antílopes.
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Ode ao Brega
Cada um tem e carrega
Em si, consigo, sua dor
Feito cruz, feito bandeira
Feito luz, fazendo amor
Cada qual lhe dá um nome
Uma forma, uma cor
Cor de pedra, cor de sangue
Cor de merda, cor de flor
Tem quem anda de mãos dadas
Tem quem durma com essa dor
Tem quem se alimente dela
Cozinhando no vapor
Uns nem olham bem pra ela
Mas lhe servem de alimento
Diz que dor tem todo mundo
Mas nem sempre é sofrimento
Dor de ouvido, dor de nó
Dor de quem se sente só
Dor de falta, dor de falto
De ralar tudo no asfalto
Dor no corpo, dor na mente
A pior é a dor de dente
E corte de papel no dedo?
Sabe de nada, inocente
Pior é quebrar nariz
Pior mesmo é perder gente
Pior é nunca ser feliz
Sendo sempre bem contente
Mas a minha dor é minha
A sua é sua, vai saber...
Não existe régua (tão) crua
Pra medir sem se caber
E se todo mundo morde
Todo mundo também mente
E se todo mundo morre
Todo mundo também sente
Dor de dó, de sol, de lá
Dor daqui e dor de ausência
(Mas) não tem quem não sinta dor
Quando escuta uma sofrência
Em si, consigo, sua dor
Feito cruz, feito bandeira
Feito luz, fazendo amor
Cada qual lhe dá um nome
Uma forma, uma cor
Cor de pedra, cor de sangue
Cor de merda, cor de flor
Tem quem anda de mãos dadas
Tem quem durma com essa dor
Tem quem se alimente dela
Cozinhando no vapor
Uns nem olham bem pra ela
Mas lhe servem de alimento
Diz que dor tem todo mundo
Mas nem sempre é sofrimento
Dor de ouvido, dor de nó
Dor de quem se sente só
Dor de falta, dor de falto
De ralar tudo no asfalto
Dor no corpo, dor na mente
A pior é a dor de dente
E corte de papel no dedo?
Sabe de nada, inocente
Pior é quebrar nariz
Pior mesmo é perder gente
Pior é nunca ser feliz
Sendo sempre bem contente
Mas a minha dor é minha
A sua é sua, vai saber...
Não existe régua (tão) crua
Pra medir sem se caber
E se todo mundo morde
Todo mundo também mente
E se todo mundo morre
Todo mundo também sente
Dor de dó, de sol, de lá
Dor daqui e dor de ausência
(Mas) não tem quem não sinta dor
Quando escuta uma sofrência
terça-feira, 11 de outubro de 2016
Lavanda POP
Tento reunir-me e a tudo o que é meu sob as asas de quatro paredes frias que nada podem conter. Basura. Meu corpo, notas fiscais e musicais que encontro vagando pela rua como cães abandonados. Sua efemeridade me encanta, então guardo seus esqueletos nos meus covis, em vã tentativa de conter-me e ao mundo dentro desse quarto que é meu crânio.
Esquecer. Guardo tudo como se fizesse um relatório constante de tudo o que vivi e vivo. Esquecer: temo. Talvez mais do que tudo. Meus relicários sobem pelas paredes, apossando-se delas, tornando-se seus tijolos. Se perco as coisas, me perco. Entendes? Esquecer... Sem as paredes, nada resta de mim.
Mas as coisas vagam, inescrupulosas, rancorosas de mim. Má anfitriã que sou, me perco delas, me embolo, esqueço, me esqueço. E é bom. Mas as coisas... Elas aprendem a sobreviver, a alimentar-se e a trafegar pelos becos das penúltimas gavetas, de detrás do armário do canto.
As coisas se banham de mofo e queimam ao sol nos dias de limpeza que tanto doem e tanto se fazem brutalmente necessários. Esquecer. É preciso. Ou impreciso, mas tão biologicamente imprescindível quanto doloroso para a mente. Mas não minto: morrerás, mente minha. És a única coisa de mim que há de morrer e acabar-se nas graças do tempo. Graças à Deusa.
Acumulo banalidades. Não sei bem o porquê. É talvez uma projeção de uma futura angústia que me virá? Que vejo nos olhos de quem olha fotos de tempos que nem lembro se já existia ou se era mera probabilidade. Quanta qualidade as memórias não perdem enquanto vão se comprimindo pelos codificadores do tempo. E virá? Me aterroriza a solidão da falta de tempo, dos anos se afogando e se escorrendo pelo ralo.
Será, por isso, acumular banalidades um investir no valor sentimental que um dia terão, por acumulação de juros anuais? Cipah. Uma ganância, uma inconformidade, uma insubmissão ao acorrentado senhor do labirinto e seus olhos cegos, lendo o agora. Fadada a falhar. Cipah?
Ou será que do desgaste mesmo do uso se faz o pó mágico do cansaço, da ferrugem, do sono. Do ir fechando as pálpebras aos poucos, já contente que o dia se terminou. Será como o fimd e um longo e cansativo dia?
Pois os dias são preciosos... Entre minhas trivialidades guardo em conchas abandonadas algumas tardes de verão gasoso, morno, quente e calmo. Em livros grossos, pequenos corpos decos de flores de primavera, vidrinhos vazios de perfume de lavanda POP. Cobertos por grossas lonas de empendurar-se, para que as traças não lhes devorem.
Guardo em xícaras de chá manhãs frescas de outono bem-vindo, como terra preta, úmida, nos pés descalços. Guardo na porta de um escuro armário, pendurados, feixes de luz gelados de um anoitecer prematuro.
Numa caixinha de cerâmica acumulei cinzas de noites de invernos. Se ponho um pouquinho na língua ainda consigo escutar as músicas para o inferno afugentar e as meias aquecendo os pés. O craquelar do fogo e da madeira me fazendo pensar (agora ou então?) aonde irão parar as minhas quando eu morrer.
Por que ninguém fala da morte?
Não sei.
Também não sei onde vão parar minhas cinzas.
Nem nunca saberei.
A morte
A manhã
A mente
Se desfez
A mém.
Esquecer. Guardo tudo como se fizesse um relatório constante de tudo o que vivi e vivo. Esquecer: temo. Talvez mais do que tudo. Meus relicários sobem pelas paredes, apossando-se delas, tornando-se seus tijolos. Se perco as coisas, me perco. Entendes? Esquecer... Sem as paredes, nada resta de mim.
Mas as coisas vagam, inescrupulosas, rancorosas de mim. Má anfitriã que sou, me perco delas, me embolo, esqueço, me esqueço. E é bom. Mas as coisas... Elas aprendem a sobreviver, a alimentar-se e a trafegar pelos becos das penúltimas gavetas, de detrás do armário do canto.
As coisas se banham de mofo e queimam ao sol nos dias de limpeza que tanto doem e tanto se fazem brutalmente necessários. Esquecer. É preciso. Ou impreciso, mas tão biologicamente imprescindível quanto doloroso para a mente. Mas não minto: morrerás, mente minha. És a única coisa de mim que há de morrer e acabar-se nas graças do tempo. Graças à Deusa.
Acumulo banalidades. Não sei bem o porquê. É talvez uma projeção de uma futura angústia que me virá? Que vejo nos olhos de quem olha fotos de tempos que nem lembro se já existia ou se era mera probabilidade. Quanta qualidade as memórias não perdem enquanto vão se comprimindo pelos codificadores do tempo. E virá? Me aterroriza a solidão da falta de tempo, dos anos se afogando e se escorrendo pelo ralo.
Será, por isso, acumular banalidades um investir no valor sentimental que um dia terão, por acumulação de juros anuais? Cipah. Uma ganância, uma inconformidade, uma insubmissão ao acorrentado senhor do labirinto e seus olhos cegos, lendo o agora. Fadada a falhar. Cipah?
Ou será que do desgaste mesmo do uso se faz o pó mágico do cansaço, da ferrugem, do sono. Do ir fechando as pálpebras aos poucos, já contente que o dia se terminou. Será como o fimd e um longo e cansativo dia?
Pois os dias são preciosos... Entre minhas trivialidades guardo em conchas abandonadas algumas tardes de verão gasoso, morno, quente e calmo. Em livros grossos, pequenos corpos decos de flores de primavera, vidrinhos vazios de perfume de lavanda POP. Cobertos por grossas lonas de empendurar-se, para que as traças não lhes devorem.
Guardo em xícaras de chá manhãs frescas de outono bem-vindo, como terra preta, úmida, nos pés descalços. Guardo na porta de um escuro armário, pendurados, feixes de luz gelados de um anoitecer prematuro.
Numa caixinha de cerâmica acumulei cinzas de noites de invernos. Se ponho um pouquinho na língua ainda consigo escutar as músicas para o inferno afugentar e as meias aquecendo os pés. O craquelar do fogo e da madeira me fazendo pensar (agora ou então?) aonde irão parar as minhas quando eu morrer.
Por que ninguém fala da morte?
Não sei.
Também não sei onde vão parar minhas cinzas.
Nem nunca saberei.
A morte
A manhã
A mente
Se desfez
A mém.
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